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Galinhada na virada cultural e crueldade com animais Eis a questão

Paulo Sérgio Leite Fernandes

Dá-se à galinha a denominação de “Gallus gallus domesticus”. O bicho já existia, com certeza, ao tempo dos césares, dois mil anos atrás, enquanto crucificavam Jesus Cristo. É, portanto, animal resistente. O conceito de belo se modifica bastante, dependendo das características ou ângulo de observação. É de Umberto Eco, aliás, “História da Feiúra”, ele que escreveu, também, “História da Beleza”. Dentro do contexto, há quem ache uma galinha bonita. Na verdade, os amantes de briga de galo (quem já foi processado criminalmente por participar de rinhas?) elogiam, nesses animais, um esporão maior, uma crista mais agressiva, um peitoral despontando sobre a penugem. Galo de briga – ou qualquer galináceo do estilo – tem comportamento, às vezes, assemelhado ao nosso. Quem já viveu em fazenda sabe: Quando dois galos são postos no terreiro, abre-se a disputa pelas fêmeas. Logo se sabe quem há de ser beneficiado. Põem-se os dois a cantar desesperadamente. Quem cantar mais recebe a premiação. É ovo pra todo lado…

Não gosto de galinhas. Quando era pequeno, minha avó espanhola matou uma na minha frente, usando a técnica do destroncamento de pescoço. A avoenga era catalã vigorosa. Girou o bicho no ar e foi só. Evidentemente, não tive problema psiquiátrico com o assunto, mas não suporto aquilo.

Vai daí, Alex Atala, meu amigo, um dos quatro mais importantes “chefs” do mundo, promove a galinhada da virada cultural. Houve, é claro, centenas de comensais. Ele declarou ter separado sete mil porções. Não é minha especialidade saber em quantas partes uma galinha pode ser recortada, mas acredito que Atala deve ter providenciado, no mínimo, setecentos exemplares, sendo preciso cozinhá-los, depená-los e recortá-los, decepando-lhes as cabeças e pés. Pé de galinha é horrível. Ainda sonho com eles, mas há quem lhe aprecie os artelhos.

Enquanto escrevia a crônica, não tive tempo de procurar a legislação protetora de animais (crueldade, maus tratos e quejados). Vem dupla indagação: galinha se inclui entre os animais domésticos[1]? Pode-se ser cruel com “Gallus gallus domesticus”? Por que existe contravenção penal referente a briga de galos? Já vi um filme referente àquilo. Patrocinadores colocam esporões de metal na 4ª garra dos bichos. Agem como os antigos gladiadores do circo romano. Mutilam-se. Matam-se, enfim, sob os olhares cúpidos dos apostadores. Surge, respeitante ao tema, outra questão jurídica importante: há diferença entre o galináceo morrer na rinha ou na panela? Em suma, matar para comer destipifica a infração penal? Toda vez que o cronista vai a um vernissage, ou lançamento de livro jurídico subscrito por jurista famoso, servem canapés e coxinhas de galinha, desossadas, é claro, segundo lição advinda de Danuza Leão. Certa vez, aliás, num baile de gala (perdoe-se o trocadilho), o acepipe escapou aos dedos da comensal e se introduziu entre os seios postos à luz do dia por decote generoso. Foi risada geral, pois todo mundo viu.

Já se percebe como a ciência penal é abrangente. Obriga o intérprete, ao repensar a galinhada da virada cultural paulista, a examinar a possível tipificação da conduta correspondente ao galluscídio.

A curiosidade vem a pelo quando se sabe que havia na Universidade de São Paulo testes praticados com pintinhos recém-nascidos, a saber, numa espécie de concurso, qual grupo de estudantes conseguiria melhor resultado de engorda. Depois os bichinhos eram sacrificados. Alunos se revoltaram. A partir daquilo, as experiências foram abandonadas.

Fica, a quem se interessar, a indagação: qual a melhor maneira de matar setecentas galinhas para a virada cultural, sem fazê-las sofrer? Houve um poeta indagando algo semelhante a respeito de lagostas: perguntou se estas gostavam de ser cozidas vivas. Respondam os entendidos.


[1] Sobre crueldade com galinhas v. apelação nº 0006923-06.2013.8.26.0481, da Comarca de Presidente Epitácio, Relator Des. João Negrini Filho

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