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OAB/SP – Marcos da Costa vence as eleições

OAB/SP

Marcos da Costa vence as eleições

(Predições de um Pai-de-Santo)

 

Começaram e terminaram ontem, 18 de novembro de 2015, as eleições para a renovação de diretorias de 233 Subsecções da Ordem dos Advogados do Brasil, Secção de São Paulo, conjugadas com igual providência na Secção Estadual, mais respectivo Conselho. Foram convocados trezentos e setenta e poucos mil profissionais. Interessa, aqui, com maior propriedade, o Conselho Seccional, havendo seis chapas, lideradas por Marcos da Costa (Situação), Sergei Cobra, João Biazzo, Raimundo Hermes Barbosa, Ricardo Sayeg, Anis Kfouri Júnior (todos sérios, competentes e respeitados). Previa-se a vitória de Marcos, consequência certificada ao fim da tarde, porque a votação o foi por urnas eletrônicas, sendo fácil a aferição. Hoje, às 12 horas, ainda não houve computação plena, mas já se conhece o resultado, havendo impossibilidade de modificação relevante. Este site havia convidado todos os candidatos a uma entrevista, a exemplo das eleições anteriores, mas não houve quem se aproximasse, porque os pretendentes preferiram o contato físico com os eleitores. Até o dia último, o cronista se manteve silente, por razões éticas, até, na medida em que pretendia entrevistar todos, sendo deselegante a publicização de suas preferências. Entretanto, agora, com a consciência absolutamente tranquila, pode afirmar que escolheu e votou em Marcos da Costa, por algumas razões: a) – o moço veio de degraus inferiores, percorrendo caminho contínuo dentro da Corporação. Chegou pelas mãos de Luiz Flávio Borges D’Urso, porque, segundo sabe o escriba, Marcos entendia muito de computação. A OAB paulista precisava atualizar-se. Havia a promessa de divulgar gratuitamente as intimações postas pelo Poder Judiciário no Diário Oficial do Estado. A partir daquilo, o moço se aproximou da liderança maior, chegando à Vice-Presidência e, depois, ao primeiro triênio como Presidente, dobrando o período no escrutínio parcialmente apurado.

         A fotografia encimando a crônica demonstra que este vetusto criminalista acompanha Marcos há muito tempo. O cronista não tinha ainda as feições enrugadas exibidas hoje, notando-se que os traços faciais marcavam menos os caminhos da vida. Marcos da Costa, a seu lado, parecia saído da adolescência, mas tinha escutado, pouco antes, a predição: você ainda vai ser Presidente. E foi, não decepcionando, conquistando, inclusive, o domínio sobre o novo imóvel da sede-maior, numa negociação muito bem feita com o Conselho Federal, porque este tinha contas a ajustar conosco. Não se dirá que a gestão tem sido perfeita, ao ver do escriba, porque a velha senhora é, muitas vezes, elegante demais em seus conflitos, inclusive com o Poder Judiciário. Tal malemolência, quiçá, constitui antinomia com o próprio querer do escriba, podendo haver objeção no sentido de que a rispidez excessiva pode transformar-se em fator impeditivo de resultado eficaz. São os questionamentos evoluindo, aliás, da própria existência.  No mais, a OAB paulista tem andado bem, um ou outro tropeço, mas daqueles superáveis sem grande dificuldade. Daí, computando-se também o voto deste sobrevivente, a vitória da chapa presidida por Marcos.

         O subscritor tem, de vez em quando, a sensação de ser uma espécie de trovador da Idade Média, sintoma não tão esquisito, porque a OAB é, entre algumas, comunidade assemelhada às “guildas” do século XV. Naquele tempo, entre os cancioneiros, havia uma tripartição: trovadores, segréis e jograis. Uns e outros trotavam nas estradinhas lamacentas, alaúdes às mãos, contando na província as coisas do reino. Paulo Sérgio é meio assim, embora elevando a voz, malcriadamente, quando sentindo na boca o travo ruim das injustiças. Lembra-se, por exemplo, de um vaticínio que não deu certo: um dia, trintênio atrás, talvez, recebeu um diploma entregue pelas mãos de Mário Covas, em teatro paulista perdido em bairro central. Disse, no ouvido do prefeito: “Você vai ser presidente”. No trono, adiante, tomou assento Fernando Henrique, aqui denominado “I e Único, Rei do Brasil”. Diga-se o que se quiser dizer, Covas já tinha problemas de saúde lá no fundão. O futuro é imponderável, mas trava a viagem, na expressão de Paulo Vanzolini, grande filósofo brasileiro: “A vida é uma fumaça e o tempo do homem é uma baforada”.

         O escriba não sabe onde está o diploma. Perdeu-o, mas era alguma coisa ligada a uma honraria, um negócio qualquer desse tipo, valendo lembrar que Covas era prefeito nomeado por Franco Montoro. No mais, sem horóscopo ou número de celular pregado no poste de luz (v. “Amarração para o amor – pague depois do resultado”), o escrevinhador é implacável. Espécie de pai-de-santo jurídico. Atendeu a muitas consultas.

         Tudo vem a pelo, veja-se bem, em função da vitória de Marcos da Costa. Encontrei-o na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, durante a votação. Vi-o duas vezes. Na primeira, em pé, abraçamo-nos. Na segunda, estava sentado à porta daquele prédio milagreiro, guardado por Tallulah e Ivete Senize. Todos sabem que Marcos perdeu uma perna num acidente, quando vinha de uma solenidade em Itapetininga. Acreditava-se que o moço estava fora da competição. Não, médicos competentes lhe preservaram toda a articulação do joelho, alternativa ótima para a complementação mecânica. O Presidente da Ordem está em absoluta recuperação. Demonstrava cansaço, sim, mas os concorrentes e seus prepostos também mostravam exaustão. Alguém ofereceu ao bastonário a oportunidade de se alimentar. A resposta foi: “depois”. Enfim, aquela cena sob os portões de bronze do quase bicentenário instituto de ensino do Direito, cujo subsolo guarda segredos desconhecidos por múltiplos advogados, mostrava o Presidente à maneira de um guardião, ferido sim, mas muito enérgico ainda, a ponto de superar as sequelas e partir novamente para a corrida. Marcos da Costa está amadurecendo. Mal ultrapassou os 50 anos. Nasceu em 1964. Em 1º de abril daquele ano o cronista já participava do episódio que depois virou uma tempestade só amainada com a promulgação da Constituição de 1988. A ditadura acabou, mas começou outra, desta vez sob a mentira de uma democracia fictícia, em que os lares são invadidos, prisões imotivadas se prolongam durante meses e meses, direitos individuais são diariamente aviltados e a advocacia é humilhada, não só pelo excesso de poder atribuído aos perseguidores, mas pela cornucópia que dourou os escaninhos do Ministério da Educação e Cultura – agora só da Educação -, gerando um milhão de advogados saídos dos bocais de duas mil instituições de ensino. Há, certamente, tarefas duras a cumprir.

A crônica é longa. Não há vagar para a leitura completa, mas o assunto é muito sério. Ver-se-á!

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