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Prova do Enem. Facultativamente aos sábados? (com vídeo)


* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Prova do Enem. Facultativamente aos sábados?


Na madrugada de hoje, 26 de novembro de 2009, o comentarista, insone, procurou alguma coisa na televisão compatível com a moral cristã. Foi difícil, mas acessou o Discovery Channel e, sem muita predisposição a tanto, localizou extensa matéria produzida não se sabe por quem, mas estrelada por cientistas que se dedicavam a localizar, se possível, alguns restolhos de gravíssimo acidente de percurso levando Pilatos e outros ao sacrifício de Jesus Cristo. O tema, independentemente das preferências religiosas de um ou outro assistente, é extremamente curioso. Dizem, entre os especialistas em Direito Penal, cuidar-se do maior julgamento da História. Sendo ou não sendo, aquele dia aziago é virtualmente repetido no mundo inteiro, cuidando-se do pão, do vinho e da crucificação de um Deus feito homem. Ali, nos milhões de templos espalhados pelo Universo, concentram-se os católicos, enfileirando-se na cerimônia da comunhão. Para quem foi educado como o cronista em colégio marista, o ato de comungar é tão sagrado que há muito tempo foi abandonado, pois, ao ver da censura extremada persistente na consciência do escritor, só os santos podem degustar a hóstia e, como o articulista santo não é, está proibido de fazê-lo, surpreendendo-se com o cortejo diário daqueles que santificados estão. Não é esta, entretanto, a finalidade da crônica. Voltando-se ao programa de televisão referido, verificou-se que os peritos, ouvidos e vistos enquanto peneiravam o solo procurando sinais do acontecido há quase dois mil anos, esmeravam-se em atribuir a Pilatos a responsabilidade pela tragédia. Trouxeram em apoio da tese argumentos ligados à época política conturbada persistindo na Judéia ao tempo do sacrifício. Cristo era líder político de oposição a Roma. A crucificação, aliás, repetia comportamento que às vezes atingia, num só período de 24 horas, quinhentos ou mais judeus e bandidos torturados. Portanto, um a mais, para Pilatos, não faria diferença, embora todos os comentaristas da Bíblia, ao tempo ou depois, dessem realce ao episódio, até hoje repetidíssimo no vernáculo de todas as línguas, correspondente ao ato de o romano ter lavado as mãos. É rara, nas disputas diárias, a criatura que, no meio do debate, afirma estar lavando as mãos quanto às consequências.

Vale anotar, sequenciando as ideias, que cristãos e judeus, a partir daquele drama universal, não conseguiram chegar a um acordo. Nenhum israelita, ressalvados os convertidos, admite qualquer responsabilidade pela crucificação, justificando-se, aliás, a defesa que o cronista assistiu antes do alvorecer do dia de hoje. A responsabilidade é de Pilatos. Os judeus apenas teriam sido partícipes secundários da operação.

Vem tudo ao raciocínio à leitura da notícia, nos jornais publicada, sob título: “STF derruba prova do ENEM que seria feita só para judeus”. É que estes últimos têm o “shabat”, dia em que devem descansar, havendo aqueles, inclusive, que sequer tomam ascensores nesses dias especiais. Pode-se ir adiante: aqueles preservadores da fé e tradição judaicas procuram residir nos primeiros andares de edifícios de apartamentos, circunstância a valorizar tais unidades autônomas. No meio tempo, há, de vez em quando, problema ligado ao já citado dia de descanso, porque provas e concursos públicos são feitos normalmente aos sábados. Os judeus não ecléticos reclamam contra a profanação. Pretende-se que aqueles que professam a fé extremada prestem exames em dias outros, não aos sábados. A Suprema Corte não lhes dá razão: todos são iguais perante a lei, o que justifica, quem sabe, a assunção de uma ou outra medida judicial para extrair o crucifixo das paredes de fundo de muitas salas de audiência, pois, se todos são iguais, ali deveria ser posto, igualmente o totem dos umbandistas, não faltando, quem sabe, uma escultura de Buda ou um ícone “vodu”. No fim das contas, vale o refrão: “a César o que é de César, a Deus o que é de Deus”. Para que não falte um pouco de poesia a um assunto tão árido, é bom relembrar Vinícius de Moraes, em belíssimo poema correspondente aos sábados. Há uma frase extremamente jocosa, mas não menos real: “-Todos os maridos funcionam regularmente, porque hoje é sábado”. Em livre associação de ideias, vale também a leitura de “Dona Flor e seus Dois Maridos”, não sendo necessário dizer que, para o articulista, é a melhor obra de Jorge Amado. Flor, perdendo Vadinho numa terça-feira gorda de Carnaval, casa-se com o Dr Teodoro, o farmacêutico da esquina. Deu-se, em continuação, o hábito do segundo acasalamento: “Facultativamente às quintas, obrigatoriamente aos sábados e domingos”. E agora? O que teria isso a ver com o “shabat”? Eis a questão.


* Advogado criminalista em São Paulo há cinqüenta anos.

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