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O dia em que Obama chorou.

 

Paulo Sérgio Leite Fernandes

 

Em 5 de janeiro deste 2016 a imprensa internacional divulgou entrevista do Presidente dos Estados Unidos da América do Norte, o havaiano Obama, sobre a psicose medrando naquele país quanto à violência a tiros visando colégios, reuniões populares, competições e acontecimentos outros em que homens e mulheres se juntam, ou simplesmente exercitam atividades diversas, desde atravessar um sinal luminoso até o trajeto a uma casa de lanches (Vídeo abaixo). Ali, ou acolá, pode haver enfocamento de mira telescópica, um doido portando arma de fogo, ajoelhado no telhado de um arranha-céu ou escondido atrás de suja cortina esvoaçante num bordel espigado. Aquela nação, difusora do respeito a garantias e direitos individuais, exibe ao mundo inteiro tal problema catastrófico. De vez em quando, alguém invade escola e mata duas dezenas de crianças, ou simplesmente transforma transeuntes em objetos de caçada, como bichos escolhidos ao acaso.

Nem vale a pena descrever o todo. Relembrem-se, cuidando-se de vitimas importantes, os assassinatos de John e Robert Kennedy.

Na entrevista mencionada Obama chorou enquanto se referia ao massacre no educandário de Sandy Hook, quando 20 infantes foram assassinados por um atirador insano. O presidente está editando medidas tendentes à regulamentação da venda e uso de armas de fogo no país, sabendo-se que a comercialização e porte de tais instrumentos são praticamente livres, constituindo atributos inscritos na 5ª Emenda. Enquanto falava, o havaiano teve os olhos marejados.

O cronista relembra livro diferenciado chamado Terra, história de uma época em que o bem mais precioso era a água. Quando as pessoas morriam, os líquidos corporais lhes eram extraídos, constituindo parte da herança dos familiares. Assim, algumas gotas tinham valor muito maior que ouro ou pedras preciosas. As lágrimas, nesse contexto, integravam demonstração clara, real e indiscutível de amor (ou de ódio, pois também se pranteia de raiva).

O dirigente da mais importante nação do universo não se conteve ao comentar o massacre maldito. Chorou sim, porque essa história de que machos não choram é bobagem. Temos nossas vergonhas e, nessas ocasiões, fazemos força para não nos verem dando sinais de fraqueza. Aliás, o escrevinhador conheceu eminente psiquiatra que, quando ficava nervoso, vestia comprida camisola branca, pondo a tocar música suave, fechado no quarto. Dançava sob aquela sonoridade dolente e vertia lágrimas suficientes ao relaxamento.

No fim das contas, o escriba gosta do “gajo” Obama (expressão lusitana adquirida em antigos contatos com diplomata português). Também admirava o marido de Jacqueline, o John, embora este não tivesse muito bom nome quanto à fidelidade conjugal. Barack, então, é bem melhor que o outro. Diga-se, não encompridando a crônica, que nossos confrades da América do Norte não amadureceram. Brincam com armas de fogo verdadeiras, como nós brasileiros fazíamos, enquanto menininhos, usando espingardinhas de rolha. Lá é diferente. Os texanos ensinam seus filhotes a disparar para valer. Põem as pistolas debaixo do travesseiro do garotinho, em dia de aniversário. O Texas vive à moda dos filmes de Alan Ladd e John Wayne. Os cowboys reagem à pretensão de Obama, fazendo-o zombeteiramente. Nessas circunstâncias, valeria aconselhá-los a marcar nas paredes de casa, a carvão, a estatística do número de mortos a tiros no dia-dia de cada qual. Diga-se, a título de arredondamento, não haver grande diferença entre a contagem estrangeira e a nossa. Embora controlemos as armas, só não os imitamos nas chacinas infantis (um brasileiro maluco, em 6 do corrente mês, degolou criança de dois anos). Quanto ao resto, estamos caprichando, não só no lado dos meliantes. Policiais militares têm feito o mesmo. Curiosamente, no intervalo entre o começo do ano e o carnaval, até os bandidos reduzem a carga de trabalho. Afinal, ninguém é de ferro. Todos têm direito ao lazer.

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