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Ministro Celso Lafer tira os sapatos

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Ministro Celso Lafer tira os sapatos
(Ou “Assim se respeita a isonomia”)


Há muito tempo o cronista vem implicando com a espionagem visual e acústica. Ela transforma os síndicos dos prédios de apartamentos em beleguins perfumados e transmuda os zeladores em trânsfugas tias solteironas, profundas conhecedoras, portanto, dos mistérios circulantes no relacionamento familiar. A irritação, parece, é só minha, pois uma neurose fóbica tomou conta da burguesia e é de bom-tom, hoje, a manutenção de câmeras sofisticadas e variados sistema de segurança protegendo as algibeiras dos cidadãos pertencentes às classes média e alta. Curiosamente, entretanto, as comunidades começam a perceber que esse tipo de proteção é contagioso e leva à escravidão, assumindo então contornos diversificados. A proteção eletrônica é hoje, assim, uma espécie de criatura mutante, na medida em que parte para um ajuste fino, adaptando-se às múltiplas provocações surgidas do relacionamento entre as pequenas e grandes comunidades, nestas incluído, evidentemente, o poder público. Capturam-se imagens e vozes em todos os ambientes, não se poupando sequer os domicílios. Mistura-se nisso o medo dos assaltos e do terrorismo. Extravagantemente, os difusores da vigilância se transformam em vítimas da própria. Assim, pode dar-se o caso de o chefe de um departamento estatal de inteligência ser filmado no elevador de seu condomínio em circunstâncias não elogiáveis; ou então pode ocorrer o aviltamento da personalidade de um Chefe de Estado, anos após sua morte, a exemplo das gravações da loucura de Nixon, determinado a destruir o Vietnã com uma bomba nuclear. Dir-se-á que isso é bom. Existem argumentos contrários, mas aqueles defensores da espionagem em nome da segurança não podem desenvolver critérios contraditórios: um para os outros e outro para eles próprios. As garantias de segurança só funcionam se forem plenas, inadmitindo exceções. A universalidade foi certamente a causa de o Br asil ficar descalço nos Estados Unidos, dias atrás, quando o Ministro Celso Lafer envergonhou a nação, obrigado a exibir as meias. E Lafer, literalmente, levava o Brasil nas costas, pois é esta a função de ministros iguais. Se o Ministro Lafer fica descalço, não há razão para que qualquer autoridade, no Brasil, reclame de exigência muito mais elegante consistente em passar o corpo dentro dos umbrais dos detectores de objetos metálicos. Não dói. E não guarda relação alguma com menor de dose de confiabilidade dos passantes. Repare-se que a utilização de armas de fogo, nos presídios pútridos brasileiros, é proibida aos funcionários e carcereiros, vinculando-se a proibição à possibilidade de serem subtraídas ou roubadas pelos presos, valendo o mesmo para telefones celulares e quejandos. Houve, inclusive, caso diferente: um diretor de presídio foi levado a soltar alguns presos porque gente de seu sangue havia sido seqüestrada. Não se diga, portanto, que alternativa assemelhada seja irrealizável em relação a um ou outro visitante ilustre excluído da exigência de passar pelos portais eletrônicos de um presídio brasileiro. Pode suceder. Aliás, já houve coisa pior. As razões de Fernando, então, estão corretas, valendo o exemplo de seu Ministro, não se sabendo se Fernando passou ou não por vilipêndio igual. Então, se Celso Lafer pôde conformar-se, conformemo-nos todos nós, sem exceção da ilustre instituição que reclama hoje ao Supremo Tribunal Federal o direito de não se submeter aos detectores de metais. Insista-se: não é doloroso. Insulta menos do que a gravação de cada movimento do condômino dentro da edificação em que reside, vigiado pelo faxineiro e comentado pela empregada do vizinho. Vocês cooperaram para a acentuação da vigilância, a intromissão dos sacrários dos lares e a gravação eletrônica de diálogos privados, transformando-se o juiz num personagem de Bertolucci. Assim, não sei se o título da crônica é adequado. Melhor seria: “Quem pariu Mateus que o crie”.

* Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e dois anos e presidente, no Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, da Comissão Nacional de Defesa das Prerrogativas do Advogado.

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