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CHERCHEZ LA FEMME (PARA DONA MARISA)

A história nunca se fez sem a presença das mulheres, é evidente, a partir de Eva, dando à luz os gêmeos Caim e Abel. Foi o primeiro homicídio conhecido, crendo-se nos textos bíblicos (Genesis). São, desde tempos imemoriais, nossas parceiras, mães dos nossos filhos, amigas ou até inimigas. Integram os grandes acontecimentos mundiais, não faltando em um só episódio da humanidade. Não é preciso procurá-las demasiadamente na realidade ou na fantasia, mas preenchem centenas e centenas de relatos deixados por poetas, trovadores, ganhadores de prêmios Nobel, mais milhares e milhares de anônimos escultores menores. Homero, já romanceava a respeito de Helena, a princesa espartana raptada por Páris e levada a Tróia, enfurecendo Menelau. Poder-se-ia ir muito adiante na exposição, havendo dezenas de versões sobre a lenda, tornando-se encantadora a versão posta no cinema por Brad Pitt, fazendo Aquiles, cuja única fraqueza era o calcanhar.

    Já se vê que a dissertação poderia ser infindável, valendo dizer, apenas, que a guerra de Tróia não teria sido a única gerada pela disputa por ou desatino de mulheres. Além disso, há nos milênios conhecidos pelos historiadores remissões múltiplas sobre o comportamento de umas e outras, pesando as mesmas na sorte ou no desastre de seus companheiros (maridos, amantes ou encontradiços nos caminhos da vida). Colham-se mínimos exemplos na modernidade, localizados ao acaso: Hitler teve Eva Braun. Suicidaram-se num “bunker”. É o que consta. Mussolini tinha Rachele. Ao fim da segunda Grande Guerra, os italianos, veja-se, amantes do pão e do vinho, dependuraram ambos em galhos de uma árvore frondosa, cabeças para baixo. Abraham Lincoln tinha Mary, não muito exponencial a moça, merecendo cuidados. Não há descrição certa de como aconteceu no camarote presidencial quando o grande Presidente morreu fulminado na nuca por disparo emanado por John Wilkes Booth, um ator frustrado que, fugindo em seguida, resistiu à prisão e foi baleado. Venha-se à frente, também ao acaso posto na memória fabuladora: Nelson Mandela resta preso na África do Sul durante mais de 20 anos, casado com “Winnie”. O desempenho da mulher durante o encarceramento do marido não foi dos mais louváveis. Separaram-se. Mandela, depois, governou eficazmente a África do Sul, sendo honrado após a morte. Deixou a família bem. John Fitzgerald Kennedy deveu muito de sua receptividade a Jackie, cujo nome era Jacqueline Bouvier Kennedy. Bonita, elegante, culta, inteligente, suportou as extravagâncias do marido, manteve vida discreta e, a certa altura, fez cruzeiro marítimo, ainda Primeira Dama, com o armador grego Onassis, muito feio, aliás, mas provido de encantos outros. Uma atitude anômala, é claro, mas ela a consumou. Recolheu o Presidente nos braços anos depois, no trágico episódio de Dallas. Casou-se com Onassis. Contrato nupcial complicado, mas foi um casamento. Morreu dignamente, em casa, quando acometida de doença terminal. Encerre-se com Sigmund Freud. Quem deste não ouviu falar? Gerador do trinômio “ego, superego, id”, passou aquilo à cultura popular. O escriba, aos 15 anos, já lembrava do emérito psicanalista quando declinava o latim (ego, mei, mihi, me, me). Ainda hoje, lendo o grande sábio, une velhice e adolescência. Por que Freud? Era casado com Martha, também judia, matriz de seus seis filhos e anquilosada no meio da vida, pois adoecera e tomava xarope de ópio, moda naquele tempo, nada de anormal, pois em 1935 o Elixir Paregórico, servido às crianças para dor de barriga, continha o produto em profusão. De qualquer forma, Martha fez os filhos. Um destes gerou Lucien, grande pintor do século XX. Havia Minna, a cunhada, educadora da filiação, companheira permanente do casal. Fala-se de triângulo amoroso, mas sempre se comenta disso em relação aos grandes homens (aos pequenos também).

    Encerre-se o trecho: não se perca o cronista em estrangeirismos. Veja-se o Nordeste, com “Lampião, o Rei do Cangaço”, mais “Maria Bonita”, cabeças bem juntas, ao fim, na ponta das baionetas das espingardas “papo-amarelo”.

    É assim. Sempre foi assim. Ser esposa, companheira, teúda e manteúda, ser a própria ou a outra, enfim, constitui empreendimento muito ousado, não só pela magnitude do aconselhamento, mas pelas consequências de eventual má-sorte do amado. Na verdade, há homens públicos passando pela vida com pouquíssimas jaças no corpo. Outros enfrentam panoramas econômicos, políticos e afins muito tormentosos, precisando administrar aquilo tudo, pagando, durante ou depois, o preço caro da deficiência ou ineficácia do combate. São honestos? A Justiça o dirá. Ou não. No entretempo, as mulheres se abraçam a seus homens. Raramente dispersam. Dividem as pancadas, quietas sim, quase todas, mas tudo tem preço. Copartícipes? Ouvintes mudas? Conselheiras insistentes na reparação ou impedimento a más ações? Desistentes? Crentes ardorosas na honestidade dos companheiros? Combatentes até o desfecho, seja lá qual for? Eis o grande calvário. E sofrimento é, pois a dor do bandido dói tanto quanto a do santo…

    A repressão penal, no Brasil, se especializou na catalogação de reféns. Dir-se-á que sempre foi assim. É verdade, mas o sistema, hoje, é mais elegante. Há três alternativas na investigação: a)- mulheres ligadas ao acusado (esposa, companheira, concubina, mãe, filha enfim), são envolvidas nas hipóteses de condutas criminosas; b)- não têm mínima relação com aquilo: c)- conhecem o todo ou parte dele. As três alternativas servem à investigação, no sentido de pressionamento e propostas diversas de recompensa em razão de colaboração ou delação premiada ofertada ao investigado. O sim e o não geram consequências terríveis. A simples possibilidade, quando chegando à rotina, cria pressão psicológica indizível. Isso acontece bastante no Brasil. Parece ter melhorado.

   Tocante à ex-primeira dama Marisa Letícia Lula da Silva, veio em 24 de janeiro de 2017, a notícia de que foi internada com urgência para enfrentamento de acidente-vascular-cerebral, não se conhecendo a extensão e gravidade do evento. O cronista não a conhece pessoalmente. Viu-a poucas vezes, pela televisão. Ela sofreu AVC. É grave. A jovem Senhora já acompanhou o marido na presidência da República. Não há notícia de desregramento seu. Fez seu papel com discrição e suportou tempestades repetidas na sua domesticidade, sem desequilibrar-se externamente. Num certo sentido, é heroína. Não fosse isso, haveria ainda a vontade sincera deste velho escriba de que se restabeleça plenamente. Não sei do marido. Não é meu amigo, nem faço proselitismo, mas o homem é um gladiador. Todo guerreiro precisa da mulher.

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