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Como Transformar-me em Chefe de Cozinha

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Como Transformar-me em Chefe de Cozinha
(Ou “Vamos comprar sapatilhas de bailado”)
 


 

               Ao escrever “Ponto Final” anterior denominado “Minha tia saiu pra tomar chá”, este cronista não havia lido ainda o parecer 146/2002, da lavra, na Câmara de Educação Superior, dos eminentes conselheiros José Carlos Almeida da Silva (vice-presidente) e Lauro Ribas Zimmer, aprovado à unanimidade pela Câmara e subscrito também pelo conselheiro Arthur Rochetti de Macedo, presidente da citada Câmara. Chegou o alentado parecer posteriormente. O receio de algum equívoco levou o cronista a ler as sessenta e poucas páginas da rotunda manifestação. A consciência do terrível atentado à seriedade contido naquele parecer obriga a algumas considerações, arredondando-se o chá da tarde das tias solteironas referidas naquela crônica. Realmente, os ilustres conselheiros cujos nomes são identificados (até para não se cometer equívoco cruel contra um inocente qualquer) propõem similitudes risíveis entre os cursos de Direito, Turismo, Hotelaria, Música, Dança, Teatro e Design, balizando-os quanto à organização curricular, estágios, atividades complementares etc. Adiante, nas “Competências e Habilidades”, definem os eminentes relatores, entre outras qualidades, a capacitação à leitura, compreensão e elaboração de textos. À frente, referindo-se à dança, sugerem os relatores formação em duas vertentes: a primeira, uma espécie de comprometimento com a produção coreográfica; a segunda, a integração do indivíduo na sociedade, dizendo isso tudo com o desenvolvimento de alta estima (?) e da expressão corporal. Mais além, cuidando dos cursos de música, o parecer sugere a atuação de forma significativa nas manifestações musicais, instituídas ou emergentes.

     Lido o parecer, impressionou-se o cronista com a necessidade de ligar a caçarola do chefe de cozinha, as sapatilhas da bailarina, a clarineta do musicista e a toga do juiz. A iniciativa não deu certo, porque não se pode imaginar um jurista entrando no foro trançando as pernas vestidas com meia de seda, uma dançarina, corpete justinho, correndo o risco de queimar o saiote no fogão, um clarinetista disputando uma ação de despejo na mesa de audiência (a menos que plante o instrumento na cabeça de um magistrado menos educado), um mâitre d’hotel trocando o fraque pelo contrabaixo do Morelembaun (deve ser assim), um desenhista tecendo iluminuras em petições e um ator de teatro cozinhando camarão pistola. Até que os atores se sairiam bem numa tribuna de júri. Meu filho Gustavo Bayer, excelente ator na “Companhia do Latão”, estudou Direito até o 3.º ano. Admitido o parecer, seria doutor. “Cada macaco no seu galho”, reza o ditado popular. A manter-se íntegro e homologado pelo Ministro da Educação, o parecer levará a processo seletivo multicolorido. Não se esqueçam os vestibulandos de Direito (o vestibular, segundo consta, já foi às calendas) de levar panelas, molhos diversos, saias rendadas (v. a dança do ventre?) e instrumentos musicais preferidos. Deve ser preciso saber ler. Aliás, “ler e interpretar” são dois requisitos exigidos pelo parecer criticado.

     A título de encerramento: o cronista toca muito bem gaita de boca (a denominada harmônica cromática), piano, violão e charango. Canta sofrivelmente. Já entoou “Ronda” nas madrugadas de dor de cotovelo. Com tais qualidades, há de ser catedrático numa Faculdade de Direito qualquer. Aula magna:       “– De noite, eu rondo a cidade, a te procurar, sem te encontrar…” tudo com apadrinhamento da Câmara de Educação Superior e das Comissões fiscalizadoras do MEC. Quem sabe, depois da aula, bebamos um trago juntos. Da parte do cronista, uma cerveja sem álcool. Bebam os demais o que quiserem. O cronista paga. 

 * Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e dois anos. Esta crônica é personalíssima. Retiro meus títulos.

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