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INÊS DE CASTRO

Paulo Sérgio Leite Fernandes

Ser fabulador tem algumas vantagens. Escrevi, lá atrás, que às vezes me sentia uma espécie de bufão da Corte, porque o parlapatão pode dizer e escrever sobre assuntos a outros proibidos. Os mandonistas ficam zangados, armam os esbirros com azorragues mas, no fim, até sorriem, agasalhando o palhaço ao lado das casamatas. Há outros proveitos na pantomima. Um deles: ninguém liga. Na verdade, a importância do texto depende de quantos o leem. Hoje, diga-se de passagem, poucos têm tempo a tanto. Daí, Inês de Castro, em chegança do século XIV, teria importância mínima, não fosse Luís de Camões o poeta maior da língua portuguesa. Conta-se que Inês, degolada por ordem de D. Afonso IV, foi posta no trono, coroada sim, obrigando-se os cortesãos a beijar a defunta. Por ali passaram os potentados da época, os nobres sim, os plebeus também, uns por afeto, outros por conveniência, mais uns últimos por adoração. E diz Luís de Camões: “Estavas, linda Inês, posta em sossego, de teus anos colhendo doce fruto, naquele engano da alma, ledo e cego, que a fortuna não deixa durar muito, nos saudosos campos do Mondego, de teus fermosos olhos nunca enxuto, aos montes ensinando e às ervinhas o nome que no peito escrito tinhas”. Antes: “- Passada esta tão prospera vitória, tornado Afonso à Lusitana terra, a se lograr da paz com tanta glória quanta soube ganhar na dura guerra, o caso triste, e dino da memória que do sepulcro os homens desenterra. Aconteceu da mísera e mesquinha que despois de ser morta foi Rainha.”

Foi assim? Aconteceu de outra forma? Não aconteceu? Fato é que Inês de Castro povoa há muitos anos os sonhos do velho cronista. Passou-lhe a história pela cabeça na tarde de 3 de fevereiro, enquanto tinha à esquerda a entrada do hospital que recebe, cura e às vezes guarda durante algum tempo os restos mortais de pessoas gradas da República. Havia muita gente à porta. Vi um povo triste e captei mulher com sorriso à mostra. Em suma, Dona Marisa Letícia, mulher do ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, ela vítima de AVC, estava morta, pois quando o cérebro se vai a criatura também se foi. À noite, passaram na televisão cenas de sua biografia, a partir da juventude. Uma jovem bonita, fundadora e militante do PT, aparecendo ao lado do companheiro barbudo. Não se tem notícia de ser faladora enquanto articulando reações e resistências. Aliás, enquanto mulher do presidente, poucas vezes se manifestava. Parecia, no fim de tudo, uma companheira atenta e cuidadora do lar. Enfim, e sobretudo, a esposa e a mãe. Não se dirá ter sofrido pouco. Sabe-se muito bem que quando se quer atingir o macho vai-se à procura da fêmea. Isso funciona com seres humanos e com bichos, porque animais selvagens protegem a toca e a filiação.

Nenhuma preferência pelo ex-presidente Lula, muito menos pelos outros. A política é a arte do disfarce, espécie de mimetismo levando à sobrevivência. Não me faz gosto. Entretanto, tenho ficado muito triste com dramas e tragédias. É, quiçá, consequência da vetustez. Quase chorei com a morte de Teori. Não se diga que o eleito foi pranteado porque era importante. No mesmo dia morreu o “Zé”, carroceiro equilibrista despinguelando por uma das ruas íngremes da metrópole, este sim meu amigo. Já se vê que minhas lágrimas são igualitárias. Isso quer dizer que choro, também, por Dona Marisa, que sofreu as sequelas das brigas do marido, perseguida certamente, pois é a rotina e é a técnica da investigação.  Já era doente? Enfraqueceu-se com as refregas da pós-presidência? Levou sustos repetidos com os interrogatórios e inquirições? Ou o drama lhe chegou repentinamente numa noite tranquila, como quem não quer nada, mas decidindo a bruxa ser a hora de apressar?

Há estatística para tudo. Outro dia li alguma coisa sobre a longevidade no exercício de várias profissões. Padres, em geral vivem mais. Morrem, maioria das vezes, numa velhice acarinhada em mosteiros, as freiras em conventos. Advogados costumam ir cedo, geralmente em crises cardíacas ou acidentes vasculares. Médicos não se cuidam muito. Políticos, agora, frequentam os geriatras e se previnem. Matronas, normalmente, sobrevivem aos maridos, principalmente quando ganham a possibilidade de vida pacata nos sertões que o Brasil ainda tem. Minha avó espanhola era analfabeta. Usava sete saias pesadas e se acocorava ao lado do fogão a lenha. A família apostava que chegaria aos 100 anos. Passou perto.

Dona Marisa morreu aos 66. Foi-se repentinamente. A Corte lhe prestou homenagens. Abraçaram-se os inimigos de ontem. Tocante a Luiz Inácio, já dava trabalho aos opositores. Ou muito me engano, ou vai dar muito mais, com todos os defeitos que tem, e são muitos, mas vai dar.  Inês lhe fica na memória. La Nave Va.

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