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O Assassinato do Jornalista

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
O Assassinato do Jornalista
(Ou “Epitáfio para Tim Lopes”)
 


 

               Aparece a notícia, no dia 7 de  junho, da morte do jornalista Tim Lopes, após sumiço enquanto realizava reportagem numa das muitas favelas do Rio de Janeiro. Consta que aquele profissional teria sido torturado e morto, ao ser descoberto  durante   festa onde se consumia droga e havia espetáculos de sexo explícito. Li não sei onde,  durante o período em que se  procurava descobrir o  destino   daquele repórter, que o mesmo escondia  numa bolsa uma câmera miniaturizada. Teria sido confundido com policial  pelos  traficantes,  sendo morto   por um dos líderes de quadrilha que explora  o tráfico de entorpecentes   naquela  capital e cercanias.

         É terrível a constatação.  O jornalista  viu o que não deveria ter visto e preservou, quem sabe, imagens de crimes variados.  Teria  acontecido, então, alguma coisa assemelhada a cerimonial imaginado depois da descoberta, há algum tempo, numa penitenciária brasileira, de cela pintada de negro, repleta de símbolos cabalísticos, usada para execuções de presos dissidentes.

O intento do jornalista assassinado era, obviamente, informar o povo sobre os muitos mistérios  que cercam aqueles morros habitados por grandes concentrações de gente boa e de  homens maus. Entrar sozinho num quilombo trilhável somente por policiais experientes e fortemente armados constitui extravagância sem par. É preciso dose enorme de coragem para intrometer-se  em lugar assim, colhendo provas de comportamentos criminosos. Ao lado dessa determinação, entretanto, vem  o desafio  aberto   às possibilidades de  sobrevida. É o mesmo que saltar num   covil, fingindo comunhão nos prazeres desfrutados pelos animais bravios. A intromissão  é   insultuosa. Exige castigo. Daí, o jornalista some. Dizem na televisão  que seu corpo foi queimado num buraco ironicamente denominado “microondas”. O mundo inteiro se enraivece com o fato. A imprensa brada aos céus contra o tétrico acontecimento. É muito triste, sim, a conseqüência. A família se horroriza. Mulher e filhos imploravam, antes da certeza,  pela vida do marido e pai. Não adiantou. Alguma regra  satânica  levou os facínoras à execução. Todo   profissional, entretanto, tem seus azares. Viu-se um  presidente dos Estados Unidos ser  morto no teatro por ator fracassado. Fuzilou-se um outro em praça pública. Um papa sobreviveu, embora esfaqueado no meio da multidão.  Morrem policiais nas esquinas,  soldados nas guerras, médicos nas enfermarias infectadas pela peste; morrem freiras nos conventos invadidos por guerrilheiros,  juízes que não se intimidam,  advogados baleados dentro de presídios, psiquiatras são lesionados   por pacientes psicóticos, sufocam-se mineiros nas entranhas da terra,  morrem bombeiros nos escombros dos edifícios, morre violentamente, enfim,   muito cidadão de boa estirpe. Alguém precisa  fazer o serviço perigoso. Uns o enfrentam porque é necessário. Outros  beliscam  a  grande bruxa, a saber como, quando e onde aquele silvar mefítico há de  demonstrar  que não se pode, impunemente,  zombar dos impulsos  da fada maldita. Esta última   tem seus prepostos. São demônios mas, mais dia, menos dia, morrem da mesma feitiçaria. Um espetáculo horrível em que o bem e o mal  cantam a mesma canção, num gemido infinito que leva os cantores a  lugar algum. Desfraldam, os bons, igualmente, a bandeira da violência. E tudo continua como dantes.  Restam  o choro das viúvas, o lamento das mães e o soluço das crianças.  Zumbi continua nos morros, esgueirando-se entre as sombras da favela, da  miséria, da desgraça   enfim. Aquele deus, Zumbi, é o imperador da escuridão.  Vive do podre e do desespero. É farejador de lixos.   Chafurda  pelas moitas,   alimentando-se  da desesperança  de quem vive, bailando entre as goteiras,  sob tetos de compensado ou papelão. Serve-se dos adultos e das crianças. Uns o adulam, escravizados pelo horror; outros (os meninos), o avisam, pendurados nos rochedos, da chegança dos policiais. Uma festa malsã, entre babujos e rojões. No meio disso, Tim Lopes  quis ver demais.  Viu e morreu. Valha-lhe o epitáfio: um herói, um destemido jornalista, um  profissional consciente, um imprudente jogador apressando o desfecho de uma disputa em que sempre, mas sempre mesmo,  somos os únicos  perdedores.

* Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e dois anos e presidente, no Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, da Comissão Nacional de Defesa das Prerrogativas do Advogado.

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