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Ainda sobre o assassinato de Tim Lopes

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Ainda sobre o assassinato de Tim Lopes
(Ou “Wanted Live or Dead”)
 


 

         Acolitada pela imprensa, a Polícia do Rio de Janeiro invadiu as favelas suspeitas de guardar, nos lamaçais, o cadáver do jornalista Tim Lopes. Parece – e talvez seja certeza – que o corpo foi localizado na favela da Vila Cruzeiro, Zona Norte do Rio de Janeiro. Assim, o achado tem relevância na medida em que dá como irredutível que aquele diferenciado repórter já se foi. Obviamente, é triste a dupla notícia, ou seja, a irredutibilidade da morte e o encontro dos restos. Nesse passo, os próprios jornais já aprenderam a acentuar, nos obituários, a diferença entre o espírito e a matéria. Anunciam: “O corpo será enterrado …”. Portanto, o cadáver, aqui, é menos relevante. Realça-se, predominantemente, o desaparecimento da pessoa que o incorporava. Vale então – e os jornais o tem destacado muito bem – a memória das qualidades, do destemor e da obstinação do ilustre jornalista. Ao lado, a televisão tem exibido os suspeitos do assassinato. As reportagens mostram dois homens fortes, semidesnudados, com idade não superior a trinta anos. São negros. Os detidos apareceram algemados e escoltados por policias militares do Rio de Janeiro. Tentavam ocultar-se, mas terminam encarando as câmeras. No entremeio das filmagens, há outra cena: policiais militares mostram outros capturados, isso em época anterior, em atitude assemelhada. Um tenta proteger o rosto com as mãos algemadas. O outro tem a cabeça levantada por um fardado que lhe suspende o queixo. Quando o PM o larga, a cabeça pende subitamente. O preso, evidentemente, não conseguia mantê-la em posição. As feições, por outro lado, demonstravam sevícias. Parecia que o homem estava meio inconsciente ou dopado.

         Um dos manifestos divulgados pela televisão exortava o povo e as autoridades a respeitarem a necessidade de equilíbrio na perseguição dos suspeitos e repressão do terrível crime. A advertência partia de setores da própria imprensa. Outros segmentos, entretanto, estão a estimular a violência contra co-autores do assassinato. Surge, daí, uma quase premonição ambivalente: ou os foragidos são presos vivos ou são mortos durante a corrida do bem contra o mal. “Wanted live or dead”. Como nos filmes de mocinho. Se houvesse, no Brasil, bolsa de apostas, em má posição ficaria quem pagasse para ver a primeira hipótese. No “turfe”, chamariam a isso de “azarão”. É esperar para ver.       

 * Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e dois anos. Esta crônica é personalíssima. Retiro meus títulos.

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