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Defuntos votam nas Eleições

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Defuntos votam nas Eleições
(Ou “O Poder das Estatísticas”)
 


 

            Os jornais de 24 de junho trazem a notícia de significativo aumento de bandidos (ou suspeitos) mortos pela polícia paulista  enquanto se avizinham as eleições. Sob o binômio “segurança-tolerância zero” e atendendo a sutil achego das autoridades, os policiais não têm conversado muito com os perseguidos. Metem bala. O preço é pago pelos marginais, mas o povo, principalmente o das favelas, sofre o rescaldo das denominadas balas perdidas.  Vez por outra, uma criança é morta por disparo que perdeu o rumo. Surge a notícia, nas edições de hoje, de um favelado que teve a vida milagrosamente salva por um fecho de zíper da calça  que vestia. O projétil da lei   resvalou no metal e apenas provocou inchaço no umbigo do felizardo, preservando-lhe a vida e a barriga. Os favelados, ouvidos, afirmaram que preferiam os bandidos aos enviados para combatê-los.

               O Governador Geraldo precisa refletir bastante sobre  a influência  que a vocação  homicida  despertada na repressão pode estar a produzir no povo. Deve ter havido pesquisa de opinião, porque, hoje, pouco se faz sem investigação da denominada vontade popular. Um órgão qualquer de perquirição das tendências populares deve ter  aconselhado o governo a partir na direção do morticínio visto por aí. De qualquer forma, vê-se, perfeitamente, que a estatística dos óbitos está exigindo reforma dos gavetões do IML, para gáudio de algumas escolas de medicina. De fato, receber cadáveres para as aulas de anatomia não é, hoje, atribuição simples. Lembre-se de escândalo, surgido há dois ou três anos, envolvendo comércio ilegal de defuntos, descaminhando-se alguns para as Faculdades de Medicina. Acontece.

Vem o assunto a pêlo quando se lê, numa revista qualquer, a notícia de que houve missa, numa Universidade, em respeito aos cadáveres usados nas dissecações. Há depoimentos dos estudantes sobre a efeméride. Relatam que os defuntos têm apelidos. “Bin Laden” está entre eles. Valeria, nos codinomes, a semelhança com políticos e outras criaturas famosas.

               Aproveite-se a idéia. Não se conhece o destino final dos  mortos pela polícia paulista. Alguns devem ter família; outros não.  O  governador bem poderia recomendar a doação dos restos mortais dos exterminados pelos balaços. Ademais,   rins e fígados, uma vez extraídos, deixam de ter dono. Basta estarem íntegros e não terem sido  perfurados por projéteis de qualquer calibre. Pense-se  no   benefício eleitoral resultante do sorteio do fígado ou de dois rins de um marginal famoso, livres de moléstias contagiosas, tudo sob a cobertura das grandes redes de televisão.É preferível isso ao uso do morticínio para justificar a preocupação com a segurança dos cidadãos. Isso não leva a nada. Ouça-se o favelado. Este, segundo a imprensa,. prefere o bandido, que não erra tiro e não mata  os vizinhos. É esperar para ver.

 * Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e dois anos. Esta crônica é personalíssima. Retiro meus títulos.

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