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Cid Vieira de Souza

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Cid Vieira de Souza


  

               Morreu Cid Vieira de Souza, numa quarta-feira de junho de 2002. Todos morrem um dia. É a maior, entre as poucas certezas que a humanidade tem. Há, durante certos períodos, aqueles que sobrevivem. Fala-se em períodos sim, pois os sobreviventes também se vão, no eterno reciclar da vida e da morte. Assim, foi-se o amigo Cid, depois de muitos e antes de alguns. É obrigação do sobrevivente fazer o necrológio do diferenciado criminalista. Homem de múltiplas atividades, mas sempre ligado ao direito, Cid foi presidente da Secção de São Paulo da OAB durante muitos biênios (perdi-lhes a conta). Deixou o sexto andar da Praça da Sé 385, em São Paulo, para ser guindado ao Poder Judiciário, integrando o quinto constitucional dos advogados. Aposentou-se como desembargador, voltando à advocacia criminal.

         Quando um advogado recebe, em mandatos seguidos, a confiança de milhares de companheiros, desempenhando a presidência da OAB em períodos difíceis da história da nação, é um vencedor; quando deixa a beca por algum tempo e veste a toga, distribuindo justiça com dignidade, paciência, inteligência e coragem, é um vencedor; finalmente, quando é chamado a outra escala da relação entre os homens e Deus, pois sua hora é chegada, deixa em todos (e é nisso que se arrima a esperança de perenidade) a sensação de ter contribuído, no ciclo de vida que lhe foi reservado, para o aperfeiçoamento de uma comunidade.

         Já disse que a sobrevivência é cíclica. Mas não disse que o sobrevivente se transforma em testemunha. Às vezes, com um meio sorriso, digo a alguns que não me desafiem sobre o passado, porque nasci durante um governo autoritário, amadureci numa democracia, vi a implantação de uma ditadura com todos os seus terrores, identifiquei os verdadeiros heróis e os ficcionistas que vendem, hoje, mentirosas imagens do pretérito. Estava à porta da Faculdade de Direito do Largo São Francisco quando Erasmo Dias a invadiu com a soldadesca. Olhei de perto a invasão da PUC, horrorizando-me com as queimaduras produzidas em estudantes. Defendi-os, co-participando, à minha moda, da vagarosa redemocratização do país. O presidente da OAB, naquela época, se chamava Cid Vieira de Souza. Lembro-me de algumas posições suas, perdidas em edições de jornais já amarelecidos, postos a circular a duras penas: “ – Hoje, sumir ou desaparecer é palavra que incorpora exatamente aquele sentido místico já mencionado. Sumir, no momento presente, traz à recordação fatos não muito remotos; acontecimentos que levaram ao medo dezenas de famílias, pais, mães, irmãos e amigos de gente que desapareceu”. O presidente se referia à busca desesperada para a identificação dos torturados pelo regime militar. Em outra ocasião, Cid Vieira de Souza acentuou: “– A Ordem dos Advogados do Brasil, Secção de São Paulo, em reiteradas manifestações, tem defendido, com intransigência, a volta do pleno Estado de Direito e das franquias democráticas, tudo dentro de movimentação pacífica mas decidida”.

         Recordo, por fim, de discurso de Cid Vieira de Souza na abertura de um ano judiciário, durante o governo de força,  ao discursar no plenário do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo: “– Naquela sala do 6.º andar da OAB, ouço bater, todos os dias, às 12 e às 18 horas, o carrilhão da Sé. E todos os dias, às 12 e às 18 horas, repenso o tempo que falta para a redemocratização do meu país”.

         Não fui ao velório. Não vi o enterro. Não estive na missa. Quando os guerreiros partem, a gente espanta a tristeza e pensa, como em “Beau Geste”, no irmão que se afasta num barco e pega fogo aos poucos, sumindo nas brumas e deixando saudade.

 * Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e dois anos. Esta crônica é personalíssima. Retiro meus títulos.

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