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Miguel Reale Junior se exonera

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Miguel Reale Junior se exonera
(Ou “Mamãe Lourdes tinha razão”)


        

        Miguel Reale Junior se exonerou do Ministério da Justiça, em 08 de julho de 2002, depois de permanecer noventa dias no cargo. Ao assumir o Ministério da Justiça, chegou com votos de boa-sorte, mas todas as ciganas,  jogadores de tarô, babalaôs e ledores de cartas, em geral, mais as jogadoras de buzo, estas últimas da cidade baixa, lá em Salvador, Bahia, prediziam permanência breve ao novo ministro. Por falar em Salvador, Bahia, encontrei certa vez, enquanto lá passava uns dias com direito a visitar Arembepe, uma pitonisa que apareceu na sacada de casinha pintada de amarelo. No portal, um cartaz grafado toscamente: “Mamãe Lourdes. Interpreta o passado e o presente. Adivinha o futuro.” Aquela aparição vestia comprida bata branca. Era loira. Os cabelos, lisos, refletiam o sol de verão. A moça desapareceu na escuridão do quarto. Sacudi a porta de entrada, porque não achei sineta. A mulher já se encontrava sentada num banquinho, pequena mesa à frente. Havia lugar para mais um. Nos cantos do compartimento, umas estátuas de São Jorge e de Iemanjá, daquelas encontradiças nas tendas de umbanda,vigiavam a pitonisa e os visitantes.

         Moça muito bonita, pensei. Parecia deslocada naquela terra onde predominam a pele morena e penteados carapinhados. Sobre a mesinha, uma peneira grande com buzos dentro, baralho, garrafa de cachaça e dois cálices. Um olhar experiente logo me disse que eram de bom cristal, austríaco provavelmente, coisa rara a acompanhar aguardente. A bela feiticeira me fez sinal. Sentei-me. Apontou a garrafa, pôs o líquido até a metade dos cálices e me deu de beber. Apenas molhei os lábios, pois nunca fui muito do ramo, embora tentasse de vez em quando. Daí, a pitonisa começou a balançar a  peneira. Os buzos faziam barulho e se misturavam. Mãos destras lidavam com  o baralho velho. Surgiram duas imagens: um rei e um ás-de-espadas. De repente, largando aquilo tudo, a sacerdotisa entrou em transe. Pôs-se a  resmungar, um resfolego bem grosso. Deu-me um murro dolorido no peito e gritou: “– Você vai ser juiz! Você vai ser juiz! Você vai ser juiz!” Depois, sem palavra outra, escolheu o buzo mais perfeito que havia dentro da peneira,   ofereceu-o com um gesto elegante e me apontou a saída. Eu quis pagar a consulta. A mulher me expulsou imperiosamente. 

         Daquele encontro me restaram o buzo, a certeza de que nunca seria juiz  e a visão do rosto e das mãos daquela estranha mãe-de-santo. Aquelas mãos, muito ternas, tinham unhas cuidadosamente tratadas. Ah sim, uma fina corrente de ouro enlaçava seu punho direito. Trago uma última lembrança daquele encontro cheio de mistérios: a sacerdotisa rescendia levemente a perfume francês, posso garantir. Podia ser o odor daquelas folhas selvagens da Bahia, mas não, vinha da Paris do século XIX, quando a essência era legítima. Conheço bem aquele cheiro. Aliás, dizem que o Chanel número 5 tem, na base, o óleo essencial de uma árvore amazônica. E entendo disso. Só de mulher, perfume francês e processo penal. Já é suficiente. Do resto, apenas faço prognósticos que dão certo. Sem baralhos de tarô, buzos e quejandos. Quando disse que Miguel não agüentaria noventa dias no Ministério, apenas trabalhava racionalmente com dados reais. Creio gostar dele, apesar de algumas diferenças que precisamos resolver um dia desses. É homem sério à procura de quem, no governo, se comporte com a mesma honestidade. Já tentou, aqui em São Paulo, aceitando uma Secretaria (a da Segurança). Manteve-se por igual tempo. Assustou-se com o que viu. Não conseguiria modificar a torpeza. Caiu fora, antes que o lixão encontrado pudesse   enlameá-lo também. Agora, quis intervenção num Estado da Federação. Fernando I e Único, Rei do Brasil, abriu literalmente as pernas. Voltou atrás. Comandou o Procurador-Geral da República. Brindeiro obedeceu. Quis mandar no Ministro da Justiça. Miguel reagiu. Era preciso  limpar um Estado extremamente sujo, um lamaçal inadmissível a invadir o Poder Judiciário, o Legislativo e órgãos outros da administração pública.Tudo misturado a corrupção e sangue, muito sangue,  como aquele espalhado em Roraima,  ainda  sem solução…

         Miguel Reale Junior volta a São Paulo. Se tivesse consultado a nigromante da cidade baixa, em Salvador, veria no baralho um rei e o ás-de-espadas. Fernando Henrique, I e Único, já é rei e fica com a carta maior. Já se sabe que não se põe sozinho, como reclamou. Tem, sempre, o aço do cutelo ao lado, portado por quem  lhe protege os costados. Ali, ministro vai, ministro vem, procurador-geral fica até onde não reagir e todos, mas todos os que ficam, fazem a vontade do imperador. Quem não a fizer desafia as cartas e a feiticeira. Uns não chegam a juízes, outros  matam o gostinho do ministério.  Alguns são sem terem sido, como dizia Ricardo Antunes Andreucci. Há os itinerantes. Resta aos renitentes, no fim, a consciência de terem procurado, cada qual a seu modo, endireitar a nação, tarefa impossível enquanto o rei e a espada aparecerem no carteado das videntes. 
      


* Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e dois anos e presidente, no Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, da Comissão Nacional de Defesa das Prerrogativas do Advogado.

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