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Amanhã é o dia

Amanhã, 04 de abril de 2018, é o dia do esperado julgamento de habeas corpus impetrado em favor do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, disputando-se, ali, a maioria dos votos concernentes à expedição de mandado de prisão após esgotamento de jurisdição dos recursos chamados ordinários. O Brasil inteiro, não só formado por juristas, é claro, aguarda os debates e o vai-e-vem das manifestações dos 11 Ministros da Suprema Corte, transformando-se aquele Tribunal, na verdade, em um supino palco teatral. A tanto a chamada transparência levou a Corte, porque cada qual daqueles augustos magistrados se vê reptado a produzir o máximo em demonstração de sapiência, energia e estrema ação na opinião posta em concreto. O povo, é óbvio, se movimenta, denominando-se tal o conjunto de cidadãos fixados na defesa ou no ataque à liberdade de Luiz Inácio. Também é cidadania, diga-se de passagem, o militar que deixou a caserna após passagem à reserva, desde o almoxarife ao general envelhecido.  Um e outro continuam jungidos ao exército, embora afastados. Passando ao descanso, ganham agressividade nas manifestações, contrárias, em grande maioria, ao ex-presidente.

O cronista não tem e nunca teve predileção pela arte política. Gostava de alguns. Admirava Ulysses Guimarães, cujo corpo nunca foi encontrado, e de mais algum da velha guarda, velhíssima, aliás, pondo-se a ouvi-los, de vez em quando, em disquetes constituindo coleção remetida por cliente agradecido. Tocante a Luiz Inácio, admirou-lhe a energia, lá atrás, quando o homem resistiu à ditadura e às prisões repetidas, insistindo obstinadamente, adiante, na pretensão à presidência finalmente alcançada. Só. Vira-o pessoalmente, uma vez, num canto de mesa de um bar no Ipiranga, quando o advogado precisava buscar processo nos arquivos mantidos por ali pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Agora, véspera do julgamento, a Nação está alerta, valendo o mesmo para os 11, não do Forte de Copacabana, mas do Supremo Tribunal Federal. Poucas manifestações fizeram eles à margem do tormentoso embate em prospecção, valendo notar que o Ministro Barroso sugere consulta à voz da Sociedade, como se fosse a mesma robustecida pela razão. Não é bem assim, porque a multidão, eventualmente, comete atrocidades, dilacerando coisas e corpos à maneira de animais selvagens, bastando, para comprovação, a leitura de “La Folla Criminosa”, um clássico no gênero. A assistente, doutora Márcia Akemi Yamamoto, digitando o texto, relembra Jesus Cristo e o “Domingo de Páscoa”, recém-ultrapassado.

Falando-se genericamente em dias santificados, é bom lembrar que nas paixões despertadas pelos julgamentos há grupos e mais grupos buscando o apoio das divindades para o encarceramento de Luiz Inácio ou, em sentido contrário, para uma decisão liberatória assumida pela Corte Suprema, sendo importante, no contexto, a promessa de jejum feita pelo jovem Procurador da República Deltan Dallagnol, visando a que Deus proveja um decreto condenatório para Lula, isso depois de o Papa Francisco ter declarado que o inferno não existe.

Apenas suavizando o texto, o cronista relembra, num dos muitos júris feitos enquanto jovem, defesa feita para um homicida, filho de “Mãe de Santo”. Aquela senhora compareceu paramentada ao julgamento, acompanhada por alguns adeptos, igualmente portadores de amuletos variados.  A vetusta mulher, bojuda mas esperta, prometera pagar os honorários cobrados, mas não enfiava a mão no bolso da vestimenta colorida. Veio o “pregão”. Sem alternativa, o criminalista noviço, becado, precisou subir à tribuna. Finalmente, o Conselho de Sentença, por maioria, absolveu o assassino. O defensor, extenuado, foi à mãe do cliente e a cobrou severamente. Ouviu resposta da qual nunca, mas nunca mesmo, se esqueceu: “- Num pago ocê, moço. Tô oiando ocê faz muito tempo. Ocê foi bom demais. Oxossi entrô no teu corpo e fez a defesa no teu lugar. Num pago não! Acendo uma vela pra Oxossi, porque tô devendo. É bom ocê fazê o memo”.

Dito isso, a Mãe-de-Santo chamou o descendente, um garotão forte como um boi bravo. “ – Vem cá fio, vamu embora. Amanhã vamu pra praia, fazê oferenda pra Oxossi e Iemanjá. Quanto a ocê, dotô, toda veiz que fize um júri, acende vela antes. Vai falá muito meiô…”

Eis aí! O cronista não desacredita. Egresso dos Jesuítas, não esquece de ter sido um rezador, mas nunca pediu que o “Barbudo” fizesse mal a alguém. E la nave va.

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