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Uma Bomba na OAB

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Uma Bomba na OAB
(Ou “Ainda sobraria muito chinês”)
 


 

       Surge a notícia de atentado a bomba no 4.º andar da Secção do Espírito Santo da Ordem dos Advogados do Brasil. O petardo explodiu num banheiro, durante solenidade de entrega de carteiras a novos advogados. Houve pânico. Não houve ferimentos.

         O ato de terrorismo tem ligação estreita, é claro, com o pedido de intervenção federal naquele Estado, sabendo-se que o Ministro da Justiça Miguel Reale Júnior pretendera concretizá-lo, seqüenciando manifestação de vontade da OAB do Espírito Santo e de apoio, no sentido indicado, oriundo da presidência do Conselho Federal da OAB.

         Alguém, obviamente, carregou a bomba no colo até o lavatório. De três uma: ou um adepto do crime organizado pretendendo intimidação, ou uma tentativa artificial de engordamento dos riscos a que expostas as lideranças opositoras ao regime deletério perpassado por aquele Estado da Federação, ou, finalmente, um insano qualquer, estimulado a criar fato grave repercutindo na imprensa nacional.

         A primeira hipótese tem  imensa probabilidade. Buscar-se-ia o amedrontamento das lideranças que combatem a criminalidade vigente no Espírito Santo. Mas tal resultado, sabe-se bem, será nenhum porque, se e quando apavorados os líderes da OAB, restariam ainda facções outras dispostas ao reequilíbrio ético daquela circunscrição federativa. Não é, só a título de exemplo, comportamento assemelhado àquele das FARC colombianas, pois, ali, os prefeitos foram levados à renúncia sob ameaça de morte ou de seqüestro de familiares, havendo episódio recente de seqüestramento de menor impúbere. Na Colômbia, a inquietação é plena, valendo-se os revolucionários de meios fornecidos pelo narcotráfico e contrabando. Aqui, a podridão é parcial. Assim, o ato terrorista surge num quase total isolamento, embora antecedido por ameaças variadas.

         O exemplo da bomba na OAB não é original no Brasil. Lembre-se a detonação de explosivo no Conselho Federal da OAB, anos atrás, errando-se o alvo. A vítima seria o Presidente da Ordem mas morreu dona Lyda. Existe, na sede da OAB, a preservação da lembrança daquele momento terrível (a mesa de dona Lyda, meio destruída, fica exposta num envoltório de grosso vidro). Isso aconteceu em época assemelhada ao frustrado atentado ao Rio-Centro (a dinamite dilacerou as carnes de um sargento e mutilou um oficial do Exército). Além desses eventos diabólicos, recordo-me de ameaças variadas à sede da Seccional de São Paulo da OAB, isso no tempo da dita “Revolução de 1964”. Certa vez, telefonemas anônimos alertaram os conselheiros de que havia uma bomba no prédio da Praça da Sé. O resultado foi curioso porque, cientificados, os conselheiros, na época só dezoito, fizeram questão de ficar no edifício, liberando entretanto os funcionários. Era um aviso falso. O comportamento dos advogados, entretanto, merecia e merece ainda uma interpretação adequada. Não se tratava de ato de heroísmo, mas de demonstração de firmeza no processo de redemocratização do país.

         O retomar da luta pela recomposição ética do Estado do Espírito Santo tem, com certeza,  fundamentos assemelhados aos dos dezoito conselheiros paulistas. As lideranças da OAB não se apequenam com o incidente. Fortalece-se, a partir daí, a determinação. Relembre-se, por fim, que o país tem aproximadamente 450.000 advogados. Isso convoca o cronista à semelhança de uma possível guerra entre a China e nação outra. Consta que os chineses, preocupadíssimos com a densidade demográfica, não se preocupariam demasiadamente com a perda de alguns poucos durante refregas. Ainda sobraria muita criatura de olho puxado. A advocacia é assim também. O terrorista precisa saber que a substituição das vítimas seria facílima.  Um estalar de dedos e pronto. Além disso, o atentado à sede da OAB se transforma, no fim, num fato irritante, produzindo efeito contrário ao pretendido. O incidente criminoso redesperta a convicção de ser indispensável a intervenção no Espírito Santo. Haverá desdobramentos. É esperar para ver.    

  

 * Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e dois anos. Esta crônica é personalíssima. Retiro meus títulos.

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