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As Três Graças

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
As Três Graças
(Ou “Pra não dizer que não falei de Rosa”)
 


 

         Aprendi a apreciar arte, em criança, com minha mãe, Alice. Ela esculpia razoavelmente, mas era inimitável na porcelana. Sustentou meus estudos com aquilo. Ensinou-me desenho, xilogravura, piano (Eu tocaria razoavelmente, na noite paulista, num daqueles bares noturnos esfumaçados de quinta classe que cheiram a mofo, naftalina e perfume barato). Alice me interessou, também, pela identificação dos estilos (gótico, barroco, clássico, etc). Instruiu-me, na pintura, a seguir as curvas dos nus de um Picasso (fase ortodoxa, em que realmente produzia excelentes quadros de nus femininos); ou a admirar, igualmente, as belíssimas telas de Salvador Dali, sobre o mesmo tema, antes de deformar as criaturas a poder da paranóia que o tornou célebre. O tema principal, entretanto, não se prende aos dois espanhóis diferenciados, mas, enfim, àquelas que constituem, realmente, o ponto de honra de todo pintor que se preza. Refiro-me, é óbvio, às mulheres. Vieram-me estas à lembrança enquanto procurava, numa enciclopédia, um tema para divagações. Achei uma bela fotografia de quadro de Boticelli, “As Três Graças”, hoje popularizadas em milhões de cartões postais e  plantadas, em esculturas mais ou menos fiéis, em dezenas de parques espalhados pelo mundo. Não sei   a razão de terem sido três.  Poderiam ser duas, ou quatro. O número par, segundo a rotina posta na vida, não estimula. Mesmo nos tribunais, o empate é inadmissível pois, quando ocorre, o réu é favorecido ou o presidente da Corte desempata. No Brasil, as sessões periódicas do júri se compõem de vinte e um   jurados, dos quais quinze devem estar presentes para poder haver sorteio. Dos quinze, sete são escolhidos. Reside no número ímpar, talvez, a preferência de Boticelli.

Referindo-me às três graças,  encontro, nos matutinos, relato do comportamento das três madonas envolvidas na disputa presidencial à presidência da República: Rosinha, Patrícia e Marta.   As duas primeiras têm obrigações de afeto, porque acompanham os maridos (Patrícia não é casada oficialmente, mas ninguém se preocupa com isso. Divide a cama, fiel e estavelmente. É quanto basta).  Rosinha acompanha seu garotinho há vinte anos. É o suficiente, pois é preciso muito afeto e paciência  sem limite para agüentar um político durante dois decênios. Marta, formalmente, não tem homem a   prestigiar na política. Tal circunstância não a livrou de ser convocada à lide para prestigiar o candidato do PT.  Das três, duas têm posições suaves, a não ser que sejam desafiadas. Patrícia, beliscada por Marta, está em silêncio, por enquanto. Rosinha, agredida pela prefeita de São Paulo, mandou bala: está com seu homem há muito tempo. E pede voto pra ele, sim, porque o que é de gosto regala a vida. E ele merece. Marta é voluntariosa, agressiva, acostumada ao dossel e à comida ruim do albergue noturno. Mete o pé no tapete persa ou na lama da favela, tudo sem reclamar. As três têm a feminilidade à flor da pele. No entanto, à  semelhança das três graças de Boticelli, é preciso optar por uma só. Quanto a mim, do trio posto no mundo pelo artista genial, prefiro a da esquerda, olhado o bloco de frente. É meiga e gentil. Parece carinhosa e compreensiva. Tenho receio de mulheres valentes demais. Partem para a guerra e assustam os homens. O macho foge das  “amazonas”. Fica com a sensação de levar umas bolachas, se se meter a garanhão do “Sahara”. É assim, igualmente, em qualquer setor da atividade. As mulheres estão aí, por exemplo, nos tribunais. Vejo-as elegantes, vestindo a toga negra, na Justiça Estadual e na Superior. São competentes e estudiosas. Não improvisam. Falam bem. Perfumam-se. Penteiam-se. Encontro-as, nas altas Cortes de Brasília, disputando passo a passo pontos-de-vista minoritários, sem perda de dignidade e sem rudeza. Certa vez, num tribunal do sul, enfeiticei-me abstratamente por uma desembargadora (há trinta anos, sempre faz trinta anos). Perdi um habeas corpus no voto daquela juíza ilustre, mas ela tinha razão. Venceu-me com a singeleza, suavidade e comiseração adequadas a que a ferida produzida pela derrota não doesse tanto. É assim que se faz. Liberdade, igualdade e fraternidade, como na declaração francesa, preservando-se, apesar disso, a indispensável  graciosidade. Isso vale, inclusive, para as  intervenientes na política. Numa época em que jogam futebol e lutam boxe (v. a filha de Mohamed Ali), preserve-se o fundamental. As mulheres devem ser amenas, aprazíveis, deleitosas, brandas e fiéis. O resto é resto.

         Indagar-se-á a razão de não se cuidar de quatro graças (a candidata Rita Camata). A moça, igualmente, é elogiável, mas foi incrustada à última hora. Não pertencia ao Partido,  não tinha imensa simpatia por Serra e, fisiologicamente, deveria estar, sim, na oposição armada. Além disso, formaria número par. Levaria a  empate técnico, gerando embaraços mil para os   eleitores.


 * Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e dois anos. Esta crônica é personalíssima. Retiro meus títulos.

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