Home » Ponto Final » Problemas na Segurança

Problemas na Segurança

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Problemas na Segurança
(Ou “Infiltração é questão de hidráulica”)
 


       Há, nas múltiplas atividades humanas, interligações não suspeitadas. Física, química, mecânica, segurança pública, tudo exibe infiltrações (ou entrelaçamentos). É comum, nos livros de medicina e saúde, a localização de matérias atinentes à mecânica do bombeamento sangüíneo entre artérias e veias. Leu-se no jornal, outro dia, aliás, a notícia de recentíssima fabricação de um coração artificial verdadeiramente eficaz. Evidentemente, colaboraram na máquina ilustres profissionais de diversas áreas. Pense-se, por outro lado, no deciframento do DNA humano e/ou de animais inferiores (cobaias). Não há sangue ali, nem tecidos. A tarefa é desenvolvida por poderosos computadores, articulando o eterno binômio do sim e do não, ou do mais e do menos. Falando-se nessas diversificadas ciências, não se pode deixar de cuidar da denominada infiltração de uma especialidade em área de outra. Assim acontece, inclusive, no relacionamento do ser humano com seus consectários: entendem-se as várias camadas sociais. Ricos e pobres precisam conviver. Se houver separação, um não carrega o lixo do outro, não lava com desinfetante o chão do centro cirúrgico, não abre a cova dos defuntos e, durante as guerras, não vira bucha de canhão. Sempre foi assim: o general, na tenda de campanha, vê a batalha de binóculo, mas precisa do soldado, ou não faz a guerra. É assim, também, na estranha e diabólica dança entre o bem e mal. Andam de mãos dadas, os dois, sendo impossível separá-los. Odeiam-se, mas nesse rancor há intensa atração. Simplifique-se com fatos concretizados no Estado de São Paulo: existe um território macabro dominado pelo chamado “crime organizado”; no canto oposto, os homens bons constroem paliçadas e se armam para combater aqueles que violam a lei. Em outros termos, dois segmentos: o do mocinho e o do bandido. Surge, então, o fenômeno da “infiltração recíproca”, porque o bem e o mal se acasalam. O cidadão comportado compartilha os eflúvios da malignidade. O malfeitor freqüenta os altares da lei. É um absurdo, mas é a verdade pregada há muito tempo por criminólogo francês: “O meio social é o caldo de cultura da criminalidade”. Daí, o delinqüente é posto fora da cela, transita livremente, coabita com policiais e se infiltra nos domínios da maldade, cooperando em armadilhas que levam ao extermínio dos marginais. Acontece que ele também o é, tendo o corpo marcado por anos e anos de encarceramento. Nesse meio tempo, os agentes da lei o auxiliam e co-participam daquela santa tarefa de extermínio dos antigos comparsas. É difícil entender-se o paradoxo, visto que, nisso, se intrometem, em maior ou menor porção, membros do Poder Judiciário, do Ministério Público e da Polícia (Civil e Militar), cada qual conhecendo um pedaço e alguém conhecendo o todo. Quem sabe de uma porção fecha os olhos para não conhecer o resto, andando numa corda bamba. Entretanto, quem autoriza o procedimento deve saber que, lançado o entulho pela encosta, só tem paradeiro no lamaçal final. É mais ou menos como a infiltração na hidráulica. Os encanamentos, atacados pela ferrugem, começam a verter sujeira. Aquilo vai descendo e contagiando toda a vizinhança, até que o vaso explode e o condômino reage, enfurecido. Já se vê a íntima ligação entre o escândalo da infiltração de delinqüentes e a hidráulica. Quando isso acontece na vida comum, o encanador torce o nariz e sugere a troca de todo o encanamento. Diz aos moradores que aquela estrutura está envenenada. Pergunta se já morreu gente. Comenta, sussurrando, que se não morreu, vai morrer. Depois, põe as ferramentas na maleta e vai embora.

         É esquisita a comparação mas, conforme aprenderam os antigos, até os passarinhos têm relação íntima com os rinocerontes. Pousam no lombo do bicho e limpam as pústulas produzidas pelos parasitas. Se não o fizerem, aqueles grandes animais enlouquecem. Aqui, a comparação é zoológica. Perceba-se que se misturaram, numa só manifestação, a física, a medicina, a matemática, a informática, o bem e o mal, os ricos e os pobres, a hidráulica, a água pura e a lixívia. No entremeio, estão os santos que são pecadores e os pecadores santificados. Uma loucura, sim, exigindo o recomeço. Quando o preto e o branco se ligam, o rescaldo é uma triste cor cinzenta. E o cinza, sabem muito bem os navegantes, é prenúncio de tempestade.   


 * Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e dois anos. Esta crônica é personalíssima. Retiro meus títulos.

Deixe um comentário, se quiser.

E