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O grande defeito de alguns jornalistas

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
O grande defeito de alguns jornalistas
(Ou “Um caso original de acne juvenil”)
 


 

        O  grande defeito de um ou outro  jornalista é a falta de memória ou ausência de educação política.  Justificar-se-ia com isso, certamente, a deformação de conceitos enquanto escrevem. Têm a atenuante da juventude ou  da imaturidade (Há adultos que nunca amadurecem). Aconteceu, num artigo de um escriba chamado José Nêumanne, algo semelhante. Desinformado, enraivecido ou  imaturo, fez,  no jornal “O Estado de São Paulo”, edição de 14 de agosto, comentários desairosos sobre a Ordem dos Advogados do Brasil, dizendo:  “- Não me refiro a alguns receptadores de objetos roubados, mas a alguns advogados que, protegidos pelo corporativismo da OAB, introduzem nos presídios de segurança máxima os sofisticados equipamentos de comunicação que permitem aos operadores do tráfico cuidar dos negócios das drogas sem sair da cela, a não ser para usar o fax no gabinete do diretor”.

         Não conheço o rapaz. Vi-lhe a fotografia (É costume, agora, colocar-se o retrato do escritor, à margem do artigo). Parece jovem (Uns quarenta anos, talvez). Quando nasceu, a ditadura estava implantada no Brasil. Ganhou pelugem no rosto enquanto seus futuros colegas estavam presos (Um deles foi enforcado), padres eram espancados e estudantes precisavam fugir para o exterior, se conseguissem, ou esconder-se nos monastérios (eu mesmo visitei um deles). Ver pêlos crescendo na face significa tornar-se adolescente. Assim, o jornalista Nêumanne não conhece o valor da Ordem dos Advogados e desconhece, também, a velha história do próprio jornal que lhe dá o pão de cada dia. Não pode, portanto, sem mais aquela, criticar uma entidade que se preocupa, supinamente, com a manutenção do princípio da legalidade no país. O moço deveria saber – e não sabe -  que a humanidade é vítima de veneno contagioso representado pelo retorno de um nacional-socialismo cuja extinção  se pretendera após a segunda grande guerra, mas que volta hoje insidiosamente, convencendo o povo de que o indivíduo vale pouco, sendo necessário sacrificá-lo em benefício de um nebuloso conceito de sociedade defendido por um Estado autoritário que escraviza o cidadão até limites inimagináveis. Devia saber o moço, e não sabe, que uma entidade como a OAB prestou serviços extremamente louváveis à causa da liberdade, permitindo ao adolescente repórter,   enquanto crescia e obtinha mais pilosidade, obter, igualmente, a dose de independência necessária a poder, inclusive, mais tarde, difamar os advogados. Na verdade, o jornalista José acusa a Ordem dos Advogados de proteger profissionais que se dão ao cometimento de infrações penais. Sabe muito bem que existem leis a obedecer. Todo cidadão tem o direito de ser processado segundo acusação regular, merecendo a melhor proteção possível. A condenação, se e quando vier, chegará com a dose certa  de aproximação da verdade. Pretende o articulista, desprezando todo o esforço daqueles que lhe possibilitaram,  inclusive, barbear-se em paz enquanto noviço, censurar uma instituição que mais não faz a não ser exigir respeito à Constituição, excluindo os infratores, sim, se e quando apurada a culpabilidade dos indisciplinados, mas exigindo, porque é da lei, o respeito ao contraditório pleno nas ações penais promovidas para apuração de hipóteses de infrações penais atribuídas a advogados. Sabe o jovem detrator  que um dos grandes males do Brasil moderno é o aviltamento,  praticado  pelo Estado,  dos direitos e garantias do cidadão. Mas o repórter parece ter sido  insidiosamente inoculado pelo mesmo autoritarismo aparentemente derrotado por seus irmãos mais velhos, aqueles mesmos que publicavam, no jornal que lhe dá guarida,  versos de Camões substitutivos das verdades censuradas pela ditadura malsã. Acredite o jovem no vaticínio de quem já tinha cabelos brancos enquanto o outro cuidava, no dermatologista, da “acne juvenil”: há, agora, um esforço concentrado de alguns setores no sentido de desmoralização dos advogados. É lição da história. Acontece  sempre que as nações caminham, por razões variadas, para a escravização do povo. O aprendiz de feiticeiro, desconhecendo o fenômeno deletério, auxilia os cérberos que estão a devorar, manhosamente, todas as áreas de resistência a essa fome desenfreada. Vai fazê-lo o jornalista até sentir no traseiro, mais tarde, o mastigar da censura, a perseguição do beleguim ou o rosnar  de um mastim ensinado a perseguir todo aquele que tiver, nas mãos, um resto de tinta vertido  pelo papel de imprensa. Daí, há de pedir socorro àqueles que tem procurado aviltar. Dir-lhe-ão, em resposta, que deveria ter feito com mais assiduidade a lição de casa, estudando afincadamente a recente história do Brasil. Mas ainda há tempo de purgar o pecado. A OAB é, ainda agora, um dos poucos esteios de moralidade da nação. Acusá-la injustamente de protecionismo à delinqüência não é, seguramente, o melhor meio de combater a podridão em que se pôs, no país, o respeito ao sistema jurídico vigente. 


 * Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e dois anos. Esta crônica é personalíssima. Retiro meus títulos.

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