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Quantos paus fazem uma jangada?

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Quantos paus fazem uma jangada?
 


 

               Estive em Recife, a convite de Eduardo Sertório e da presidência da secção pernambucana da OAB. Era um congresso estadual, com quinhentos advogados. Foi no Centro de Convenções, logo ali, em Olinda. Um belíssimo encontro de advogados, sim, cuidando-se de aspectos melindrosos da advocacia. As conclusões serão publicadas logo mais. Importantíssima, entretanto, foi a angústia demonstrada pelos participantes quanto ao presente e ao futuro da profissão, os jovens sem saber como se comportar, os antigos mostrando no rosto sinais de preocupação enquanto apontavam os escolhos postos, à frente da mocidade, pela incúria, despreparo, negligência, despudor até, de quantos ocupam, de tempos a esta data, o Conselho Nacional de Educação e respectivo Ministério. Disse-se aos jovens, naquele dia 7 de setembro, durante um dos painéis, que a grande responsabilidade pelas ofensas às prerrogativas não deveria ser debitada a maus juízes ou a autoridades despreparadas para o exercício das atribuições que lhes haviam sido deferidas por lei. Não, a culpa, levada a limites extremos, deveria ser carregada, sim, por quantos, tendo sobre os ombros a sacrossanta tarefa de preparação do caminho a ser trilhado pela juventude brasileira, vêm praticando, tocante aos cursos de Direito, verdadeiro estelionato, popularizando de tal forma o ensino e o estudo das ciências jurídicas que transformaram a tarefa pedagógica em enorme cornucópia, derramando-se a dinheirama para as gordas algibeiras das mantenedoras, regidas as últimas por príncipes que loteiam, entre si, os “campi” fartamente distribuídos em Brasília. Afirmou-se aos moços, igualmente, naquele congresso, que a distribuição de benesses se aceleraria agora, a final governo, num “salve-se quem puder” dramático, porque, não se sabendo quem viria em seguida, bom seria, no Conselho, concretizar-se o apadrinhamento final. 

         É extravagante a afirmativa de ser, a pletora de advogados, responsável pelo aviltamento das prerrogativas. É simples: desde Jarbas Passarinho, e começando pelo próprio, a advocacia sofreu espezinhamento constante, arregimentando as autoridades todas as forças possíveis no sentido de facilitação dos cursos. Inscreveram-se na Ordem, desde aquela época, quatrocentos e cinqüenta mil profissionais, afora aqueles que, simples bacharéis, não fizeram inscrição ou não a conseguiram. Tais colegas conhecem, em maioria, muito pouco de seus direitos e desconhecem, mesmo, a minúcia de suas obrigações. Perderam, em razão mesma do número, a característica da diferenciação. É encargo terrível, agora, demonstrar-se-lhes que são diferentes, porque consubstanciam a dificílima função de intermediar o relacionamento entre o cidadão e o Estado-Juiz, tornando-se os porta-vozes, sempre, das causas de manutenção da liberdade. Precisam tomar tento para tais particularidades, embora submetidos a duros embates na difícil obtenção de honorários (e honorários são) imprescindíveis à sobrevivência.

         Os advogados do nordeste são valentes. Sabem que as prerrogativas, hoje, devem ser disputadas a ferro e fogo, sem vacilação qualquer, independentemente das conseqüências advindas de comportamentos autoritários de funcionários públicos atrabiliários.  Dos processos criminais eventualmente instaurados em razão do entrechoque a Ordem sabe cuidar. Não pratique o advogado, isto sim, avanços nos dinheiros do cliente, não engane ninguém, com realce para órfãos, viúvas e miseráveis, não se comporte desrespeitosamente com o juiz, promotor público ou delegado de polícia e não se amedronte se deles partir a falta de respeito. Trate o adversário com lealdade e não abandone o outro nos incidentes decorrentes dos embates profissionais. É simples. O resto é resto.

         Lá no Recife, achei uma embarcação autêntica, daquelas construídas com toras de pau-de-jangada. Coisa rara, porque o IBAMA   acha que pescador é destruidor de florestas, confundindo  rede de pesca com serra  a motor. Mas não se consegue impedir  que o povo de Pernambuco, do Ceará e adjacências, ensine aos moços que uma jangada se faz com cinco, sete ou nove paus, todos unidos a marreta e cunhados indissoluvelmente. A verga, conforme o vento, é introduzida em um dos onze furos feitos na madeira, muito resistente, posta na base do banco do jangadeiro. Os orifícios têm nome: primeiro de dentro, segundo de dentro, furo da bolina e assim por diante. No meio, os jangadeiros fazem um último buraco. Usam-no quando todos os outros se tornam ineficazes para enfrentar o vento. Acontece isso no nordeste. Há, no Ministério da Educação, uma ventania ruim que é preciso enfrentar com muita valentia, provocando-se a derruição do sistema apodrecido. Mastigue-se aquele vento, simbolizando-se o combate a partir do jangadeiro. Naveguei naquela jangada de sete paus. Parecia delicada, mas encarava o mar aberto com a proa agressiva. Ela significa momento decisivo na luta contra a malcheirosa tempestade que instila, no Ministério da Educação, o aviltamento da advocacia (v. conclusões no site www.processocriminalpslf.com.br).                                              

 * Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e dois anos. Esta crônica é personalíssima. Retiro meus títulos.

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