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Heloisa Cristina Stamato Cupini morreu

Heloisa Cristina Stamato Cupini morreu

 

         Santo André é cidade bonita. O cronista ia lá às vezes, para uma ou outra audiência, ou em visita a aparentados.  Tem em algum lugar foto  amarelada mostrando cavaleiro empertigado sobre um cavalo forte. No retrato, ao fundo,  aparecia parede de uma construção simples, pequena, aliás. Pintado em negro um nome: Carlos Stamato, cirurgião dentista. O ginete era o próprio, o primeiro dentista de Santo André. O doutor Stamato clinicou ali durante muitos anos. Teve filhos, todos vivos ainda. Vieram netos, em número de quinze. Entre estes estava Heloisa, falecida aos 22 de julho findante. Não era hora da partida, mas a escolha não é nossa. Os fados decidem. Heloisa Cristina, bonita, suave, elegante e calma, pintava quadros. Uma artista plástica com estilo próprio, demorando meses para terminar uma tela, fazendo-o numa técnica peculiar, porque abaulada nas extremidades. Não me lembro de outro pintor assemelhando. Um dos quadros é meu. Mostro-o abaixo.

Houve missa de sétimo dia em igreja majestosa posta na Praça do Carmo. O templo estava cheio, pois havia outros a serem lembrados. Aquele templo,  segundo os parentes, começara lá atrás, na época em que o dentista vivia, avantajando-se aos poucos. Um pároco antigo disse o sermão. No banco à frente deste escriba havia três acólitos devidamente paramentados, o do centro um homem já caminhando para a vetustez, os dois outros jovens e barbudos. Havia algo conhecido  na figura central, lembrando antigo convívio.  Na sexta-feira anterior o escrevinhador havia perguntado por um antigo estagiário, de quarenta anos atrás, chamado Marco Antonio Rodrigues Nahum, um jovem promissor, como tantos outros passando por aprendizado. Dizem que há sincronismo na vida.  Realmente,  aquele diácono era Marco Antonio, culto desembargador aposentado do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Fixei os olhos na cabeça do vizinho.  Aquilo não funcionou. Marco Antonio não foi à comunhão. Os acompanhantes foram. Ele só me viu ao se virar para os cumprimentos que todos se fazem, parte, diga-se, do ritual da santa missa.  Daí sim, me reconheceu. Emocionou-se. Demos um grande abraço, Nahum  católico convicto (via-se pela indumentária),  o escriba temente do além, desconfiado, como na música-poema de Vinicius de Morais  ( certidão com firma reconhecida e assinado Deus).  O amplexo  começou e acabou em seguida.   O diácono foi aos afazeres finais do cerimonial.   O escriba  se juntou aos familiares de Heloísa, a quem todos amávamos o suficiente para o choro solitário, pois homem dificilmente pranteia em comunidade. No fim das contas, um final sofrido, mas descanso das dores constantes dos últimos dias.

         A missa corria ao encerramento. A consciência  passeava pela imagem de Cristo, parcialmente coberto o corpo pelas vestes de estilo. No entremeio, chegou aos neurônios uma história vista ou ouvida num lugar qualquer: havia nave espacial repleta de viajores. Chegados aos  trinta e três anos, preparava-se cerimônia em que os aniversariantes passavam por um círculo de luz, dizendo-se  uma outra dimensão.  Na verdade, um incinerador gigantesco, mas ninguém sabia. Excesso de contingente, com certeza. Nascemos, crescemos, fazemos filhos, amamos, produzimos e morremos. Todos, cada qual à  sua moda, fazem falta. À  porta da igreja, na saída, um mendigo dormia, vigiado pelo cão atento. Até o pedinte  daria saudade ao cachorro, ou vice-versa.  Heloisa era importante,  creia-se, não por ser uma pintora talentosa, ou intelectual diferenciada,  mas por ocupar, em vida, um  lugar bem gostoso no coração daquela gente deixada tão triste. Para nós outros, restaram o quadro na parede da casa, a figura do Cristo Crucificado  e a escada em caracol mostrando a subida para o topo.  Não me esqueço do Marco Antonio Rodrigues Nahum, juiz rezador, acreditem, mandando suas mensagens de paz e carinho  ao mundo inteiro.  A moça querida esteve no meio de tudo.  E La Nave Va.

 

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