Home » Ponto Final » Evandro Lins e Silva

Evandro Lins e Silva

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Evandro Lins e Silva
(Ou “O Salão dos Passos Perdidos”)
 


 

               Evandro Lins e Silva, o advogado  do século, escorregou num geleioso  leito de rua no Rio de Janeiro,  enquanto caminhava do aeroporto Santos Dumont a um lugar qualquer. Sofreu traumatismo craniano. Até segunda-feira, dezesseis de dezembro de 2002, está internado numa clínica,  curtindo coma profundo. Não há bons prognósticos. Salva-se e volta à  plenitude da consciência,  recupera-se parcialmente, entra em estado vegetativo e morre devagar ou  passa de uma a outra. Não existe quinta hipótese.       

Conheci Evandro Lins e Silva pelos jornais. Perdi a noção da época. Conduziu-me ao estudo do Direito Penal. Adolescente, deliciava-me com os relatos dos grandes casos criminais dos anos cinqüenta e sessenta (Revista “O Cruzeiro”). Ele era notícia freqüente, com Romeiro Neto e Carlos Araújo Lima. Serrano Neves, o mais moço, chegou depois. Romeiro, creio, era o mais antigo. De Araújo Lima tenho várias cartas, escritas de Friburgo. Romeiro, Araújo Lima e Serrano.  Já foram  embora os três,  faz tempo. Evandro é o inspirador  e,  paradoxalmente, herdeiro de todos eles, numa condição quase atemporal, sobrevivendo a Evaristo de Moraes Filho, defensor de um presidente da República, impetuoso enquanto o absolvia, o mesmo  Evaristo sim, que já trazia consigo a leucemia a matá-lo pouco depois…

         Se precisasse colocar Evandro  junto a todos eles, precisaria lembrar-me de Dante Delmanto, de quem mandei fazer, acompanhado carinhosamente pela família, o busto de bronze tão vigilante no 1.º Tribunal do Júri de São Paulo, vigilante sim, para que não nos tomem aquele sacrário que preserva, severo, a justiça feita por nosso povo paulista.  Evandro se abraçaria, ainda, a Celso Delmanto, nosso querido amigo e companheiro  que viajou tão cedo. Enlaçaria nas mãos aquelas do Derosse de Oliveira,  dos maiores criminalistas que o Brasil já teve. Ali pelas bandas, José Gomes da Silva, genial paraense amigo de Juscelino Kubstchek, apareceria dando suas casquinadas excêntricas, todos perto de  Américo Marco Antonio e Raimundo Pascoal Barbosa, entre muitos que a memória não  ajuda a recordar, talvez em poupança do enfrentamento dos mistérios do vir-a-ser.

         Vi Evandro, há pouco, na Conferência Nacional  dos Advogados, em Salvador. Usava bengala. Não era doença. Sofrera assalto em Copacabana, meses antes. Estava naquela reunião para falar e ser homenageado. Adiante, na televisão, encontrei-o recebendo loas do presidente Fernando Henrique, isso depois de o terem vestido, alhures,  com o fardão da Academia Brasileira de Letras (Ficou bonito. Lins e Silva é alto, magro e não tem barriga. É feio o fardado barrigudo).

Lá está, no fim de tudo, nosso  Evandro, uns tubos metidos no nariz, luzes azuladas pululando nos monitores, um bip-bip intermitente mostrando que o amigo resiste. Tomara que saia dessa batalha.Vai  perdê-la agora ou adiante, porque é das poucas a nos vencer. Mas pode ficar mais um pouco aqui, lúcido,  retemperado pelo milagre do amor à vida, nunca desnaturado pela inconsciência. Se é preciso morrer, venha de repente a morte dos guerreiros,  “não mais que de repente”, dizia Vinicius de Moraes. O riso faz-se o pranto, um prosaico soluço gerado por calçada lamacenta da cidade maravilhosa, não um raio ou trovão impactante trombeteando no salão dos passos  perdidos.     

* Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e dois anos. Esta crônica é personalíssima. Retiro meus títulos.

Deixe um comentário, se quiser.

E