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Márcio Thomaz Bastos

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Márcio Thomaz Bastos
(Ou “Estava escrito nos dados da cartomante”)
 


              Há um mês, voltei a Salvador, Bahia, depois de ausência trintenária. Era a Conferência Nacional dos Advogados, realizada no centro de convenções daquela cidade tão linda. Os congressos servem ao aprimoramento intelectual, auxiliam profissionais e permitem, também, a realização de um ou outro passeio turístico. Tratando-se da Bahia, obrigatória seria, em Salvador, uma visita a Arembepe. Naquela praia, mantida quase como estava na primeira visita, existe uma aldeia hippie, hoje constituída por umas poucas famílias instavelmente postas a ocupar casas semidestruídas. Levado pela saudade, fui lá. Havia duas ou três gastas mulheres e alguns homens compondo colares, brincos e braceletes artesanais. Viam-se muitas palmeiras. Leve odor de fumaça pairava dentro dos cômodos. Lá adiante, um horizonte muito azul sobressaía, emoldurando as dunas. Aquilo me lembrou o tempo em que tínhamos vagar, fôlego e teimosia para percorrer a pé os quase seis quilômetros que separavam a praia de Arembepe do centro de Salvador. Em Arembepe, esfaimados, havíamos encontrado um pescador que tinha, na tosca geladeira, uma lagosta, um pouco de farofa, uma porção de tempero preparado no azeite de dendê e uma cerveja meio gelada. Não esqueci aquilo. Coloquei a história, com outros personagens, no livro “Caranguejo-Rei”. Resta-me um exemplar perdido numa estante. Mas em Salvador, também, fomos à cidade baixa. Jurista que se preza traz de lá um buzo, um patuá, uma estátua de São Jorge pequena (pesa menos) e as predições de um babalaô ou de mãe-de-santo. “Mãe-Menininha” era viva, mas não a vimos. Seu terreiro ficava longe. Além disso, para participar dos rituais, o visitante precisava ter padrinho. Assim, optamos por uma vidente da cidade baixa: ““Mamãe Lourdes. Interpreta o passado, analisa o presente e adivinha o futuro”. Assim rezava o cartaz pregado à porta da casinha amarela. Chegando perto, apareceu na sacada do segundo andar uma loira mulher, vestida de branco, jovem e bonita. Foi apenas uma visão. Sumiu de repente. Dentro da residência, numa pequena sala cujas paredes estavam pejadas de santos, pontificando um São Jorge a cavalo, “Mamãe Lourdes” apareceu. Entrou num transe moderado e deu um soco no peito do Márcio, gritando: – Cê vai sê juiz! Cê vai sê juiz! Cê vai sê juiz!. Depois, percebendo minha presença, esticou a mão e me entregou um buzo, lindo caracol que trago comigo até hoje, emoldurado num contorno de prata. “Mamãe Lourdes” errou pouco na predição. Márcio Thomaz Bastos, meu velho companheiro nas lides criminais, virou Ministro, o da Justiça, responsável, portanto, pelo reequilíbrio do Poder Judiciário brasileiro. Quanto a mim, fiquei com o buzo e a alegria de ser ligado a triunvirato diferenciado: José Carlos Dias, Miguel Reale Júnior e Márcio Thomaz Bastos. Os dois primeiros tentaram, mas bateram de frente contra o muito sólido muro levantado pelas injunções políticas. Márcio, conduzido pela esfinge, dá a mão ao metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva. Há de precisar dos quatros anos para obtenção de um resultado qualquer, mas não se esquecerá, enquanto servindo à pátria, da terrível destinação, até agora, da Justiça brasileira, voltada ao castigo, sim, nos nossos podres cárceres, do preto, do pobre e da prostituta. A famosa regra dos três “Pês”.

  * Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e dois anos. Esta crônica é personalíssima. Retiro meus títulos.

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