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Um deputado deseducado

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Um deputado deseducado
(Ou “Como ofender alguém”)
  


              

        Sempre estimulei o uso do dicionário. A língua portuguesa tem, seguramente, mais de 228.500 unidades léxicas. Os bons dicionários exibem, aliás, além de explicar o vocábulo, a característica de pequena descrição respeitante à palavra, permitindo alternativas àquele que pretende usá-lo. Cuida-se, portanto, de atividade sofisticada (a de falar e de escrever). O  ser humano é, supinamente, animal simbólico. É curioso, mas quando alguém, conversando comigo, se refere ao vocábulo “casa”, logo me vem à consciência o prédio da Praça da Sé, número 385, sede da OAB paulista. A explicação é fácil: entro e saio de lá há quarenta e seis anos, independentemente de quem lá estiver a mandar, fazendo-o agora menos, mas sempre atento aos acidentes de percurso da Corporação. Alternam-se as lideranças. Conheci, no finzinho dele, Noé Azevedo, antecessor de Cid Vieira. Vi e ouvi Ildélio Martins, o primeiro a dar um murro na mesa em defesa de um advogado. Passaram por mim – ou por eles passei – Mário Sérgio Duarte Garcia, José de Castro Bigi, Márcio Thomaz Bastos, Guido Antonio de Andrade, João Piza, Antonio Cláudio Mariz de Oliveira e José Roberto Batochio, cada qual com suas qualidades e seus defeitos (todos temos nossos pecados) mas sempre, independentemente disso, superando-se na tarefa de velar, em nome da Corporação, pelo equilíbrio, sensatez, honestidade e respeito, enfim, no relacionamento entre o Estado e povo. Nenhum deles deixou memória ruim. Tal honorabilidade pública se estende, inclusive, ao presidente Carlos Miguel Castex Aidar, com quem, aliás, não me dou bem, mais Orlando Maluf, vice-presidente da Seccional paulista e exercente, agora, por algum tempo, das funções atinentes à Presidência.
               Na medida em que a OAB tem sido, inclusive nos períodos de autoritarismo, instituição que trabalhou e trabalha assiduamente na aferição da temperatura democrática do país, preocupando-se, então, com o asseguramento das garantias e direitos individuais, seus líderes sempre disseram o que pensavam, expressando-se, entretanto, com o uso sensato de alguns dos já mencionados 228.500 símbolos registrados nos dicionários da língua portuguesa. Nenhum deles, até porque se dispuseram ao afincado estudo do vernáculo, ofendeu a Assembléia Legislativa e/ou seus deputados, injuriou, difamou ou caluniou governadores, senadores e presidentes da República. Até no impedimento de Collor e Pitta a Ordem se conduziu dentro de parâmetros civilizados. Obedecem-se hoje aos mesmos preceitos respeitantes à boa educação, usando-se o vernáculo com muito cuidado, tudo com o fim de respeitar a honra, a dignidade e a imagem pública dos adversários. Causa imensa tristeza, então, o desbordamento com que o deputado Roque Barbieri ripostou a críticas feitas pelo presidente em exercício Orlando Maluf Haddad a projeto de lei estadual que eleva taxas cartorárias, projeto esse subscrito pelo citado deputado. Segundo consta, em uma entrevista radiofônica, o parlamentar teria chamado o presidente da Ordem de idiota, estendendo as ofensas à OAB. Não vale a pena a transcrição do texto. Basta refletir sobre a conveniência, provinda da cultura e da utilização dos léxicos, de se manterem os conflitantes dentro de parâmetros verbais elegantes e adequados às funções exercidas. Roque Barbieri é deputado na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo. Foi honrado pelo povo. Precisaria conter-se dentro das paralelas que fazem dos representantes da cidadania homens respeitados e ouvidos. Diga-se, além disso, que a falta de educação do deputado nem mesmo se faria presente numa disputa de bar entre trabalhadores não alfabetizados. Ali, as expressões “burro” e “idiota” seriam cobradas na ponta da peixeira. Já vi gente morrer por causa disso. Evidentemente, cuidando-se do presidente da Ordem e de um deputado, a ofensa será cobrada civilizadamente, na Justiça. O parlamentar terá a oportunidade de pedir desculpas, não pelo revide, mas pela má-criação (No dicionário, ato ou dito grosseiro ou incivil). Difícil lhe será, entretanto, escusar-se perante 450.000 advogados. Chamou-os de negligentes e desonestos. Já escrevia Nélson Rodrigues (é nome de uma peça teatral, creio), que toda nudez será castigada. Na hipótese, a grosseria do moço não tem perdão. 

 *Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e três anos e presidente, no Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, da Comissão Nacional de Defesa das Prerrogativas do Advogado.

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