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Deformações na Educação

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Deformações na Educação
(Ou “Chão de Estrelas”)
 


 

               Comecei minha vida de advogado criminal em porta de cadeia, há quarenta e cinco anos. A expressão é rude, mas não deve ser confundida com aquela atividade feia de captação de clientela nos perebentos distritos policiais de São Paulo. Tem exemplo parecido nos médicos residentes em hospitais públicos: ali, a tarefa mais ingrata é a de lavar queimados. Usam-se escova e sabão medicinal. O odor é ruim e a função é, normalmente, não remunerada. Entretanto, nenhum residente se recusa a tanto quando o chefe da clínica assim determina. Ademais, ou o novato aprende ou nunca chegará a ser um profissional de verdade.

               A advocacia criminal é assim. Cadeia cheira mal (creolina misturada com bolor, suor de corpo mal lavado e xixi). O jurista precisa sentir aquele fedor para entender, mais tarde, alguma coisa de Direito Penal. Aliás, todo cursinho para a magistratura, o Ministério Público ou carreiras correlatas deveria ter, no currículo,   uma parte prática, como têm, analogamente, os candidatos a legistas:  estes são postos frente às bandejas de metal que contêm os corpos de gente morta violentamente. Ou os moços se acostumam ou partem para outra …

               Indagar-se-á qual a relação entre cadeias, feridas malcheirosas, médicos noviços, juízes e promotores novos, advogados recém-diplomados e a educação. A ligação é íntima. Diz com a pobreza, a falta de alimentação e higiene, os lamaçais das favelas, a deseducação das crianças, o desemprego, o desespero, enfim, do miserável na  luta pela sobrevivência. Conheci a podridão do favelado há  mais de quarenta anos (e aqui vai a ligação lógica do texto), quando salvei, imprudente e tresloucado, um acusado de tráfico de maconha, preso num posto policial de uma favela qualquer. O homem estava algemado num pedestal de cama comida pela ferrugem. Iam matá-lo. Quando apareci, a alternativa seria exterminar os dois. Consegui um acordo para que o levassem à delegacia, lá embaixo. Na ida, havia uma chuva torrencial. Guiava um fusca velho porque, de fortuna, tinha o carro, uma esposa maravilhosa e os três filhos que hoje alegram minha terceira idade. O Wolks caiu numa cratera profunda. Deve estar lá, ainda. Escorria lama pelos atalhos, tudo misturado em lixo e galhos de árvore. Casas de papelão e lata, choro de  neném, palavrões de bêbados, bruxuleio de velas. Eu no meio daquilo tudo.

               Não esqueci do homem cuja vida foi poupada. Deve ter morrido de tiro, depois. Mas ficou, mesmo, a recordação da penúria daquele povo. Meio século passado, assovio às vezes um verso de “Chão de Estrelas”, alguma coisa ligada a uma lua furando aquele zinco e salpicando de estrelas aquele sofrido chão. Por coincidência, o PT tem uma estrela como símbolo. Livre-se o presidente, portanto, de engordar as multimilionárias universidades particulares que o Brasil tem, dedicando-se à tarefa de alimentar e educar os miseráveis. Parece que já começou. E começou bem.  

* Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e três anos e presidente, no Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, da Comissão Nacional de Defesa das Prerrogativas do Advogado.

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