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Toffoli vai para o Supremo ou não vai? (com vídeo)

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Toffoli vai para o Supremo ou não vai?


 

 Lá em Muzambinho, nas velhas Minas Gerais, havia um médico de roça que atendia toda a população do município e vizinhanças. Bom cirurgião, operava o que lhe aparecia, desde úlcera duodenal até unha encravada. Tinha um bisturi de aço azulado, deixado pelo avô que, este sim, era barbeiro de profissão. Para quem não sabe – e todos sabem –, a falta de médicos levava os barbeiros a algumas práticas da medicina e até da odontologia, havendo hoje um ou outro museu, por aí, exibindo cadeiras portáteis de dentista munidas de aparatos movidos a pedaleiras com correias, à moda dos amoladores de faca.

 Aquele antigo esculápio de Muzambinho seria o denominado cirurgião geral, embora pouquíssimos conheçam, na atualidade, todas as artes do intricado corpo humano. É só chegar ao hospital e já aparece um monte de cubículos, valendo dizer que só falta surgir um entendido no rim esquerdo e outro no rim direito. Ao lado disso, existem os diplomas nas paredes, uns em francês, outros em inglês e muitos em tedesco, significando, evidentemente, que o portador possui cursos de extensão e/ou de pós-graduação.

 A modernidade é assim. É de Pitigrilli, inclusive, a história de um grande médico que se cansou das honrarias, escondeu os títulos num baú e se homiziou no interior da África, começando a praticar o curandeirismo. Como entendia de medicina, angariava muito êxito e logo formou clientela grande. Enciumados, os poucos médicos o denunciaram às autoridades. Pott foi encarcerado e acusado de prática de magia negra. Crendo que seu destino seria enforcamento, não teve alternativa: desencavou seus títulos e diplomas, exibindo-os aos juízes e demonstrando, assim, ser respeitadíssimo doutor nas artes médicas.

 O exercício de qualquer atividade profissional é concomitantemente simples e complicado. À época do Conde Matarazzo, em São Paulo, havia falta de engenheiros, sendo as construções administradas pelos chamados provisionados. Alguns destes vinham da velha Itália e eram abrigados pelos imigrantes vencedores, muitos deles egressos do “Bom Retiro” e do “Bixiga”, o mesmo teto da Achiropita, igreja que ainda sedia aquelas festas donde ecoam as “tarantelas” e muitas canções napolitanas.

 Perguntar-se-á o que isso tem a ver com o doutor Toffoli, candidato à Suprema Corte. Ver-se-á daqui a pouco a relação entre os médicos de roça, os pedreiros italianos, as canções napolitanas, Battisti e o Supremo Tribunal Federal. Evidentemente, o refugiado político em causa veio de lá, depois de passar pela França. Toffoli é o preferido do Presidente da República para suprir a vaga deixada por Menezes Direito. Advogado Geral da União, exibe bom tempo de vida dedicado ao PT e não teve vagar suficiente para encher o baú dos diplomas que o Doutor Pott guardaria para a eventualidade. Relembre-se que o personagem de Pitigrilli já era antigo no ramo. Assim, com ou sem as guirlandas das pós-graduações, era “bom de faca”. Toffoli tem 41 anos de idade. É um menino. No tempo do meu pai os homens envelheciam aos 60 anos, ou morriam antes. Agora não: há muito surfista chegado a essa idade. A chegança do doutor Toffoli à Suprema Corte é vista como a intromissão de um noviço na clausura do padre velho. Dentro do contexto, ou o jovem tem as algibeiras repletas das comendas postas em latim (o que é muito bom), ou é genial (o que é excelente), ou há de ter as mesmas dificuldades que o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil tem para a aceitação da lista tríplice que mandou, faz tempo, ao Superior Tribunal de Justiça, para a ocupação de vaga ali aberta no 5° constitucional, sabendo-se que, em comentários paralelos, chega a afirmativa de que um dos candidatos prestou concurso à magistratura algumas vezes, sendo reprovado, defeito idêntico àquele atribuído a Toffoli. Para mim, a não aprovação tem pouco relevo.

 Advogados em geral, cuidando-se de juízes, põem as barbas de molho, pois o magistrado de hoje pode ser o desembargador do amanhã, constituindo imprudência a análise da personalidade, das qualidades, dos defeitos, enfim, de uns e de outros. É verdade, mas alguns, velhos rábulas sobreviventes, já ultrapassaram o tempo da manutenção de pudores iguais. Podem falar. E falam. Nessa medida, o jovem Toffoli deve ter, se não detiver diplomas plenos de iluminuras, qualificações intelectuais adequadas a lhe suprirem a pouca idade e o minguado uso do bisturi. Tocante ao Senado, haverá dose razoável de constrangimento. Referindo-me à Suprema Corte, é como acontecia na Távola Redonda: o escudeiro carregava muita sacola até poder cavalgar junto aos nobres da Corte. No fim de tudo, no meio jurídico, ou se é respeitado pela cultura, ou pelos títulos, ou pela inteligência, ou, no fim, pela idade. Obviamente, se e quando ungido Ministro, o moço há de ser respeitado como tal mas, se qualidades não tiver, será uma pena. É esperar para ver. O cronista diz unicamente o que todos têm vontade de dizer. E não dizem.


* Advogado criminalista em São Paulo há cinqüenta anos.

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