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O crime de induzimento a suicídio. (com vídeo)

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
O crime de induzimento a suicídio


 

 O cronista vem insistindo há muito tempo no argumento de que a imprensa, independentemente das leis que regulamentam sua existência, precisa estabelecer uma espécie de controle interno sobre a divulgação de noticiário que pode provocar convulsão social ou conseqüências danosas nos leitores. Exemplo bastante disto é a divulgação desordenada de infrações contra o patrimônio, praticadas normalmente com violência, contra cidadãos que moram, principalmente, em condomínios (edifícios de apartamentos ou edificações térreas mas fechadas a circulação estranha). Pensa-se normalmente que tal divulgação acidula o medo, levando os cidadãos a medidas extravagantes na defesa da tranqüilidade e do patrimônio. Não é só isso. Infratores também lêem jornais e vêem televisão. Desenvolvem às vezes um sentido egoístico de heroísmo ao avesso, porque bandido também tem vaidade. Aprendem, com a experiência alheia, a incendiar coletivos ou a molestar gente honesta na escuridão dos cantos de ruas pouco freqüentadas. Curiosamente, os noticiários de televisão, inclusive aqueles que vertem sangue ao primeiro toque do botão de receptores, ensinam até mesmo a arte de produzir granadas caseiras ou de lidar com armas automáticas. O cronista se lembra, apenas a título de suavizar a crônica, de menino que se vestiu de homem-aranha e saltou da janela do apartamento, fazendo-o depois de assistir a desenho animado que mostrava o herói a ser imitado. Num sentido bem antigo, vale a pena relembrar “Madame Bovary”, de Flaubert, livro que despertou na Europa, depois de editado, onda de vitriolagem entre as damas não bem amadas, veneno que parecia romântico, mas que trazia, enquanto produzia efeito, dores horríveis nas doidas criaturas.

 Há canais de televisão que divulgam, noite e dia, fatos horríveis acontecidos nas capitais e pequenos burgos, sabendo-se que a atenção aumenta na medida da dimensão dos dramas postos em evidência.

 A competição é grande entre as produtoras de notícias assemelhadas. Ganha quem tiver aproximação maior ou chegança mais rápida. O ouvinte, ou leitor, ou visualizador, serpenteia no trânsito caótico, impressionado com as informações de mortes e colisões havidas no caminho. Não existe, a não ser por exceção, cinema exibindo filme que não tenha assassinatos, armas, gritos e tragédias em geral. Não se sabe onde isso tudo vai acabar. Sabe-se, entretanto, que a divulgação de coisas tristes é verdadeiramente esquizofrênica, não havendo freios ou censura interna e externa. Isso é contagioso, e muito. Acossa o homem de bem e motiva o próprio bandido. A última classe – a dos bandidos – é a pior, mas ela própria tem sido bem educada pelos canais de televisão e pela imprensa em geral. Vale a pena refletir sobre o assunto.


* Advogado criminalista em São Paulo há cinqüenta anos.

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