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Waldir Troncoso Peres morreu. (com vídeo)

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Waldir Troncoso Peres morreu
La Nave Va


 

 Fui ao velório de Waldir Troncoso Peres hoje, dia 13 de abril de 2009. Raimundo Pascoal Barbosa se retirou do mundo há muito.  Mês passado, ou coisa parecida, morreu José de Castro Bigi. Mais perto ainda, foi-se Dalmo Bordesan. Os antigos estão indo embora, uns devagar, outros no impacto, não se sabendo o que é pior. Disse certa vez, num acesso de desespero ao chorar a morte de um deles, que o ser humano, diferenciado ou não, deveria viajar para o universo como se faz – ou como se fazia – com o garanhão de raça que fratura uma pata: dava-se-lhe um tiro na fronte, uma bala só, bem encaixada, terminando-se com o sofrimento dele ou paralisando o sofrimento próprio. Isso diz, certamente, com a ortotanásia, não se sabendo bem se ela chega para aplacar o drama do outro ou resolver o padecimento do sobrevivente.

 Waldir Troncoso Peres, quem sabe o maior criminalista brasileiro do século XX, foi velado, repito, hoje de manhã. Dizem os jornais, atualmente, nos anúncios fúnebres, que “O corpo foi enterrado no cemitério de não sei das quantas”, dando-se a impressão de haver uma separação perfeita entre o espírito e a matéria. Se assim fosse, ou se assim for, os seres humanos, ao morrerem, não seriam arrumados e postos da melhor forma possível nos receptáculos propositadamente preparados, inexistindo então aquele cerimonial de despedida que a todos emociona, uns chorando abertamente, outros disfarçando, mais um grupo sem coragem de entrar, embora chegando para os cumprimentos à família, com realce para a viúva e os filhos.

 Fui lá sim, para beijar a mão de Carminha e abraçar os filhos, um deles Moacir, hoje desembargador, o outro ainda jovem, mas também lembrando na fisionomia e nos gestos a efígie paterna, ambos fazendo as vezes para as obrigações da etiqueta, porque até nos abraços desse tipo há atribuições convencionais.

 Olhei o rosto de Waldir Troncoso Peres. Estava bonito sim, ele que em vida havia sido simpático com aqueles que faziam parte de seu afeto, mas que só ficava belo enquanto desenvolvia, no júri ou fora dele, aquelas defesas que o transformaram com justíssima razão no príncipe dos criminalistas brasileiros. Waldir Troncoso Peres usava óculos de lentes fortes e, quando falava, desequilibrava o corpo, pendendo-o para a direita. Ali, enquanto movimentava os braços com maneirismos muito próprios, ficava verdadeiramente uma nobre figura, vestindo aquelas becas que nem sempre eram suas, porque pegava as de outrem no depósito dos tribunais.

 Discursou muito, nos 60 anos de profissão. Escreveu pouco. Não deixou livros, não dando sequência, é certo, à linguagem escrita de Dante Delmanto, Evandro Lins e uns poucos. Advogados criminalistas têm a maior parte de seus escritos perdida no meio de processos descorados no tempo. Sua herança repercute, sim, na memória daqueles que os ouvem falando, como acontece – ou acontecia – aos grandes atores do passado remoto.   Tenho dele duas cartas, ambas pessoais e manuscritas, postas num português impecável e com observância de uma grafia redonda, firme, bem pensada. Guardo comigo, no mesmo arquivo, bilhetes de Raimundo Pascoal Barbosa, Carlos Araújo Lima, Evaristo de Moraes Filho, Celso Delmanto, Cid Vieira de Souza, saudosas lembranças do tempo perdido nas brumas. Lembro de José Aranha, que me viu no Supremo Tribunal Federal, quarenta e poucos anos atrás, eu hirto numa beca novinha, aguardando vez para a primeira sustentação oral na Suprema Corte. Naquele dia, dele recebi o conselho precioso sempre transmitido aos mais moços: “ – Não tenha medo, filho. Juízes também têm dor de barriga!”

 Mostro um escrito de Waldir Troncoso Peres no átrio do escritório. O texto, para mim, é uma oração de fé. Termina dizendo: “ – Da próxima feita, se possível, coloque um sorriso nas personagens, porque a humanidade está carente de fé e otimismo.”

 Fazia trinta e poucos anos – talvez quarenta – que eu não via Carminha, aliás só a havia encontrado uma vez, quando foram ambos me buscar em Santos para disputar minha primeira eleição na OAB.  Guardei os dois na memória com imenso amor, sabendo naquela época e sabendo ainda hoje que a relação de causalidade é infinita. Trouxeram-me para cá. Aqui criei meus filhos e sobrevivo com a valentia ensinada pelo casal diferenciado. O dia de todos chega. Daqueles que se vão restam as recordações. Aquilo passa de avô ao pai, deste aos filhos, aos netos, bisnetos e assim por diante. Acabam, os antepassados, nos retratos pendurados nas paredes. Dia desses, a criança começa a olhar e indagar quem foi seu avô ou bisavô Waldir. Alguém, então, lhe conta as histórias, algumas delas rigidamente reais, muitas misturadas na lenda, mas todas elas consistindo no relato da vida do príncipe que partiu. E “La Nave Va”.


* Advogado criminalista em São Paulo há cinqüenta anos.

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