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Lucros na Educação

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Lucros na Educação
(Ou “Editorial da Folha de São Paulo – página A/2 – 27/01/2003″)
 


 

               Quatro meses atrás mandei artigo à “Folha de São Paulo”, criticando, pela enésima vez, a imprudência, o despreparo, a falta de critério com que a Câmara de Ensino Superior, o Conselho Nacional de Educação e/ou o Ministro Paulo Renato estavam a aviltar o ensino e o estudo do Direito, emitindo desenfreadamente autorizações para funcionamento de escolas cujo objetivo maior seria o aquinhoamento de lucros fáceis. Anteriormente, havia conclamado mestres e doutores a uma resistência global à indignidade concretizada na retribuição, advinda dessas universidades, ao esforço dos professores enquanto ministrando aulas e mais aulas, sabendo-se que o quociente de mestres e doutores na composição do corpo docente constitui requisito teórico à possibilidade de funcionamento de tais cursos superiores. Para se ter idéia do que vem acontecendo, diga-se que, em média, as aulas são pagas à razão de R$ 15,00 (quinze reais) , o suficiente, talvez, para um lanche no “M’C Donald’s”. Em outros termos, os doutores e mestres, depois de cinco anos de pós-graduação, merecem um hambúrguer, uma coca-cola e um sorvete com farofa a cada aula ministrada, correndo o risco, evidentemente sério, de obesidade. Não se sabe por quais cargas d’água, os doutores e mestres, seguidos por professores não titulados, não reagem. Transitam lesmaticamente pelos corredores da ditas universidades, recolhendo as migalhas ofertadas a custo pelas mantenedoras. Mas não é só. Isso tudo foi dito e remetido, em bom português, diga-se de passagem, mas sem qualquer ressonância, ao jornal referido. Disseram ao infra-assinado que a atualidade do assunto já havia sido ultrapassada. Paralelamente, carta remetida ao “Ombusdman” foi, igualmente, desconsiderada, restando num arquivo qualquer. Entretanto, parece agora que este advogado consegue redespertar, embora posto no limbo, um interesse qualquer da “Folha de São Paulo”. Na verdade, hoje, 27 de janeiro, aquele matutino, timidamente, cuida do assunto dos diplomas que mais não são além de um pedaço de cartolina, acrescentando: “Em algumas carreiras, como medicina ou direito, isso pode ser até uma ameaça pública, pois são grandes os riscos que corre alguém que se consulte com um médico ou advogado incompetente”. Uma reação tardia, é bem verdade, mas vale o refrão: “Água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. 

               Superadas as tristezas, parta-se para atividade positiva. Sabendo-se que a imprensa tem enorme influência nos destinos da pátria, com relevo para a educação, bom seria que os jornais dedicassem especial atenção ao ensino universitário, concentrando-se nas escolas de Direito. Tocante à medicina, há uma censura natural, porque o mau médico aleija ou mata, sentindo o jornalista na pele o possível resultado da atividade de um esculápio incompetente. Levando-se a visualização para o campo do Direito, a relação de causalidade já é venenosa. Mata devagar, fugindo o venefício à censura externa. Paralelamente, a conduta dessas mantenedoras superpotentes  pode servir, às vezes, de cala-boca, imiscuindo-se os tentáculos na própria economia dos órgãos censórios. No fim das contas, um jogo de interesses que transforma o articulista num romântico e medieval cavaleiro a atacar ingenuamente o moinho de vento. Uma grande dose de idealismo, sim, mas, no fecho, constitui parte do texto a inspirar “Camus” quando escreveu “O Homem Revoltado”. Vai isso para os mestres e doutores, para os moços e moças da “UNE” e “UBES”, para os universitários em geral e para os jornais também. Há, no terreno das grandes batalhas sociais, algumas que não têm partido, ideologias ou pudores. A educação é uma delas. Realmente, o ensino universitário, no Brasil, está apodrecendo. Seria deprimente a co-participação no silêncio. Este – o silêncio – é a pior forma de conduta.

* Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e três anos e presidente, no Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, da Comissão Nacional de Defesa das Prerrogativas do Advogado.

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