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Como vender um juiz

 * Paulo Sérgio Leite Fernandes
Como vender um juiz
(Ou “O conto do serviço militar”)
 


          Há dois meses, participando de um congresso em Brasília, surpreendi-me com um colega, também com 67 anos, a mostrar velha fotografia, feita há meio século, exibindo alguns recrutas, todos magrinhos, rostos quase imberbes, vestindo o verde- oliva do exército nacional. Um deles era eu. Emocionados, relembramos os velhos tempos, a partir do exame de seleção para a prestação de serviço à pátria. Nenhum dos dois tinha pé chato ou defeito físico outro. Entretanto, perderíamos um ano de estudo, não havendo, no momento, a alternativa do sofisticado CPOR. Foi então (as histórias antigas sempre começam com foi então) que surgiu um intermediário. Naquelas priscas eras, ninguém conhecia a expressão “lobista”. Era sinônimo de atravessador. O gajo se dizia muito amigo do capitão-médico, aquele que apalpava as partes íntimas com uma régua já meio gasta, tateando a presença ou não de varicocele. O lobista se propunha a dirigir a vareta do capitão, em sentido figurado, é claro, tudo visando a declaração de incapacidade do candidato para morrer pela pátria. Meu amigo e eu não tínhamos condições de pagar o preço exigido pelo solerte militar. E lá fomos nós, postos em fila, pelados, como se fôssemos destinados à incineração num dos campos de extermínio da Alemanha nazista. No meio da fila, havia um índio, o mais natural de todos (estava acostumado a andar nu). Mas o índio estranhou a grupo, recebendo séria advertência do cabo. No fim de tudo, após o uso da régua e a amostragem dos pés, meu amigo e eu fomos aprovados. Em doze meses, dei um tiro (errei o alvo) e fui preso por trinta dias, porque desertei da guarda para ir a um baile de fim-de-ano, com “smoking”, acompanhando minha paixão de adolescente. Entenda-se, psiquiatricamente, meu ódio à conscrição obrigatória.

                 Voltando-se aos pés chatos, se e quando o intermediário (hoje lobista) tivesse recebido algum dinheiro, três alternativas haveria: ou eu realmente tinha pé chato, e a dispensa seria autêntica, ou tinha os pés perfeitos, e a dispensa seria fraudulenta, ou, finalmente, a parte plana dos meus pés não seria suficiente para impressionar o capitão-médico. Até hoje não descobri a solução do mistério.  Sem qualquer desrespeito, e na medida em que já me cansei de termos vetustos, vale o exemplo para a vendagem de juízes e autoridades outras. Dizem que há lobistas embrenhados nesse labirinto de influências mefíticas. Alguns, segundo consta, cobrariam pelo resultado: se der certo, pague o preço; se não der, é de graça. É mais ou menos como o exame médico do serviço militar, no passado, é óbvio. Se a varinha do médico tateara a anormalidade, acertava-se o combinado. Sendo o exame negativo, o intermediário ficaria a ver navios. Não se podia, entretanto, atribuir a desonestidade ao infeliz facultativo, cumprindo este, às vezes com fastio mas honestamente, a missão de indicar quem tinha e quem não tinha pés chatos e/ou varicocele. Nesta medida, cubram-se os detratores de eminente Ministro posto na berlinda em jornal do dia 06 de fevereiro. Por muito menos, homens igualmente sérios já foram destruídos. Resta saber se, à maneira do capitão-médico, deve o juiz afastar-se ou não, enquanto submetido a uma investigação que ele próprio requereu. Disse o Presidente do Conselho Federal da OAB, Rubens Approbato Machado, que o afastamento era imperioso. Não sei não. Depende muito do temperamento do investigado, do seu conceito pessoal de dignidade, do destemor no enfrentamento da crítica e da própria consciência da impecabilidade de seu comportamento. Vale aqui o ditado: preso por ter cão e preso por não o ter. O desligamento pode significar, também, medo, insegurança, covardia até.  Se eu fosse capitão-médico, manteria meu posto, varinha na mão, cutucando as partes dos conscritos. E ai de quem tentasse tirar a minha régua…

               Serve a parábola para o incidente, desagradável, por certo, mas demonstrando, no fim de tudo, que o ser humano, mendigo, faxineiro, médico-militar ou ministro, não pode ser aviltado enquanto mantiver estado de inocência.

* Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e três anos. Esta crônica é personalíssima. Retiro meus títulos.

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