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Portugal recebe adido policial enquanto resiste ao acordo ortográfico. (com vídeo)

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Rogério Seguins Martins Júnior
** Portugal recebe adido policial enquanto resiste ao acordo ortográfico


 

 Francisco Buarque de Holanda, descendente de historiador ilustre, tem vinculações históricas com Portugal. Aliás, compôs a respeito um fado maravilhoso em que tece considerações sobre a descoberta, a colonização e a herança que a portucália nos passou. Independentemente de se pôr, com Vinícius de Moraes e Tom Jobim, na característica de um dos maiores compositores que o Brasil tem – ou teve –, Chico Buarque é primoroso conhecedor da língua, devendo estar, como os cronistas, preocupadíssimo sobre o acordo ortográfico posto a viger facultativamente, aqui e nos países convenientes, a partir de 1º de janeiro do ano corrente. Dentro do contexto, Angola, Moçambique e quejandos estão a refletir sobre o assunto. Da parte dos cronistas subscritores do texto, há resistência quanto à supressão do trema, de alguma acentuação, do hífen e minúcias outras desimportantes. Por exemplo: pára-quedas virou paraquedas; co-autoria se transformou em coautoria; co-herdeiro sofreu metamorfose. É coerdeiro. Idéia não leva mais acento agudo. Fica ideia, parecendo o feminino de “ideu”. É para dar risada, mas fica a coisa numa acepção meio extravagante. O português, de sua parte, usa muito o “facto’. Escreve “acto”: Juristas brasileiros respeitados, quando querem impressionar o auditório, fazem expressão severa e comentam o “aspecto factual” do problema posto a debate, não se perdendo os cronistas em discussões sobre se “factual” continua ou não assim. Passe-se a minúcias com preciosismos lusitanos: os antigos machos da terra não dizem “transei com ela”. Atentos às tradições de masculinidade vindas dos descobridores, afirmam: “ – Pus-me nela”-, supina vaidade. Portugal tem, para os subscritores, uma sedução toda especial, a partir do Convento de Mafra, saudado por Saramago e palco do “Memorial do Convento”, bastando dizer que, analogamente a Jorge Amado – “Dona Flor e seus dois maridos”-, Saramago deu existência literária a um casal, “Blimunda e “Baltazar Sete-Sóis”, sabendo-se que ‘Blimunda” conhecia os segredos que passavam pela alma do amante, embora só os tivesse materializado quando “Baltazar” estava sendo crucificado numa praça de Lisboa. Vem a propósito a lembrança quando se reflete na relutância de Saramago em incorporar aos seus textos as mudanças ortográficas referidas. Aqui no Brasil, com certeza, Cony já se declarou renitente. Quanto aos subscritores, gostam do trema. É um sinal gráfico muito simpático e dá à palavra uma força excitantemente máscula. Vale a pena dizer, então, ainda em homenagem aos portugueses, que os articulistas conhecem muito bem a cidade de Guimarães (Aqui nasceu Portugal), recordando-se de que a proximidade entre os balcões de uma e de outra casa situada do lado oposto das ruas faz imaginar, embora ligação alguma haja entre as figuras, “Cyrano de Bergerac” a tentar seduzir Roxane, escondendo o nariz atrás de uma árvore plantada nas proximidades.

 A leitura do prólogo pareceria desalinhada se não houvesse enlaçamento temporal com notícia hoje colhida em destacada publicação lisboeta (Correio da Manhã). Ao lado da fotografia do respeitado policial brasileiro Paulo Lacerda, há um texto afirmando que o hoje diplomata (?) vai ser adido policial na Embaixada do Brasil em Lisboa. Publicou-se: “O cargo, que não existia, foi criado para dar ao ex-chefe da ‘secreta’ e homem de confiança de Lula da Silva um ‘exílio amigável’, depois de o Presidente o ter exonerado do cargo na segunda-feira, três meses após a eclosão do escândalo das escutas ilegais no Supremo Tribunal Federal supostamente feitas por agentes da ABIN”.

 O texto exibe alguma curiosidade, pois os portugueses também estão a travar escaramuças com a reforma ortográfica. O doutor Paulo Lacerda é chamado “Inspector”. Usa-se a expressão “actividades ilegais”. A notícia não é muito elogiosa. Afirma-se que durante o período em que Lacerda comandou a Polícia Federal alguns alegados criminosos foram arrancados da cama de madrugada, depois de as portas de suas casas terem sido arrombadas à bala ou destruídas com explosivos”. O “à bala”, exagerado até na crase, embora não haja erro nisso, tem vertente insultuosa ao recém-chegado.

 Feliz daquele exilado em Portugal, mesmo cognominado de ex-espia (com ou sem hífen?). Bons vinhos, saborosas iguarias e muito pouco a investigar, porque Portugal tem ínfimos segredos a guardar em relação ao Brasil. Não há problemas diplomáticos, inexistem terroristas brasileiros beneficiados com asilo político, não existe Ministro da Justiça procedendo adiante de sua competência, não há floresta amazônica repleta de invasões praticadas por estrangeiros, não há grandes distâncias a serem percorridas e, no fim das contas, o passaporte diplomático assegura trânsito privilegiado do adido pelos aeroportos, não precisando, espera-se, tirar os sapatos para descoberta de petardos. Tudo em paz, certamente, sendo preciso notar que nesse dramático episódio da alcagüetagem eletrônica, o diplomata Paulo Lacerda tem, se o tiver, envolvimento assemelhado ao de todos os outros imersos no chamado escândalo, sendo importante acrescentar que o Brasil é, ainda, o país da espionagem eletrônica. Isto virou uma praga (ou uma peste). Até a faxineira do bordel, bem analisada, carrega na bolsa seu gravador e celular adequados à espiolhação da intimidade alheia. �
* Advogado criminalista em São Paulo há cinqüenta anos.

** Mantida a ortografia anterior à reforma.

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