O NÚMERO DO POSTE

(Roberto Delmanto)

 

Foi um dos grandes júris da primeira metade do século passado.

A acusada era uma das moças mais belas de São Paulo. De origem humilde, mas trabalhadora, almejava casar-se bem e ascender socialmente. De vida mais livre do que então se admitia, embora não promíscua, os homens que dela se aproximavam negavam-se a assumir um compromisso.

Até que um jovem advogado de família tradicional por ela se apaixonou, apresentou-a aos pais e prometeu-lhe casamento. Seu sonho parecia que iria finalmente se realizar, quando, após vários adiamentos, ele rompeu o relacionamento para ficar noivo de outra. Desesperada, ela o matou a tiros, causando comoção na sociedade paulistana.

Meu pai Dante, então com menos de quarenta anos, assumiu sua defesa. Os estudantes das Arcadas ficaram todos do lado da acusada por dois motivos: sua rara beleza e o fato do infeliz pai da vítima, quando Secretário do ex-interventor Ademar de Barros, ter autorizado a invasão da Faculdade durante a ditadura do Estado Novo.

A acusação, afirmando que a relação do casal não fora séria, alegava que ela jamais frequentara a casa dos genitores dele. Foi quando a acusada entregou a meu pai uma fotografia de ambos, abraçados na calçada de uma rua, junto a um poste. Não dava para ver de qual via se tratava, mas como no poste havia um número, ele, durante a instrução judicial, requereu fosse oficiado à Light. Em resposta, esta informou que o poste ficava na rua em que os pais do ofendido moravam e defronte à casa destes, demonstrando que a acusada a frequentava.

Marcado o julgamento, meu pai convidou o Prof. Soares de Melo, ex-Presidente do I Tribunal do Júri que recém se aposentara e  um grande orador, para com ele dividir a tribuna da defesa. No júri, amparados em laudos de eminentes psiquiatras, arguiram a inimputabilidade da acusada por sofrer da doença mental conhecida por psiconevrose emotiva de Dupré. Em virtude desta, na ocasião do homicídio, ela entendia o caráter criminoso do ato que iria praticar, mas era inteiramente incapaz de determinar-se de acordo com esse entendimento.

Acolhendo a tese defensiva, os jurados a absolveram e o juiz impôs-lhe uma medida de segurança de internação em hospital psiquiátrico, tendo a decisão sido confirmada pelo Tribunal de Justiça. Após cerca de dois anos, os médicos da instituição a consideraram curada e ela foi posta em liberdade.

Da bela e trágica jovem não mais se ouviu falar, porém seu júri entrou para a história do Judiciário paulista…

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