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Guerra no Iraque

Houve um professor, Olavo de Paula Borges, jurista de extremo respeito, que teve a morte apressada, nos idos de 1970, por uma guerra qualquer. Sofria intensamente à leitura dos noticiários. Vez por outra, o jornal mostrava a foto de criança sem pernas ou de viúva arrancando os cabelos enquanto velava o cadáver do companheiro. Ainda existe gente assim: a hecatombe do Iraque acontece muito longe, mas é muito perto. Vê-se tudo como se fosse um daqueles jogos que fazem as delícias da garotada. Encontrei um moleque, outro dia, puxando as abas do paletó do pai, enquanto praticamente arrastado no chão liso de um Shopping Center. Queria a última versão de uma daquelas malditas ficções eletrônicas…
Olhei George W. Bush na televisão, ontem (Foi ontem?). Um descuido qualquer dos técnicos permitiu que o mundo todo captasse a imagem do presidente dos Estados Unidos enquanto se preparava para deitar falação aos povos. Tinha o rosto alisado por maquiagem. Fez um gesto de impaciência. Estava censurando alguém, à direita. Veio uma avantajada assessora, à esquerda.  Alisou-lhe a roupa nos ombros, para tirar o pó – ou a caspa. O presidente retomou a impassibilidade e a imagem desapareceu. Voltaria depois, olhos fixados no “teleprompter”, um boneco quase imóvel, lábios finos pronunciando, devagar, um conjunto de quinhentas palavras salivando, aos respingos, o veneno que saltitava, mortífero, sobre as ruas da antiga Bagdá.
O povo americano, segundo estatísticas (pesquisas de opinião), parece gostar, em maioria, do espetáculo dantesco. Há manifestações contrárias, certamente, mas nenhum político, agora, se anima a agir sem consultar seus técnicos em comportamento. Assim, os americanos do norte, a não ser que me engane, sustentam, em porcentagem grande, os atos de seu líder. Todo ser humano tem currículo. Os animais têm “pedigree”. O passado de Bush é complicado. Chegou à presidência com o “handicap” de 300 execuções à cadeira elétrica, como no jogo de “golf”, herança de quando governava o Texas. No mais, é um homem de estatura média, nunca filmado de perto enquanto anda. O alto de sua cabeça, nas olhadas que lhe dei, chegava ao braço de Chirac, mais baixo, aliás, o último, que seu antecessor De Gaulle. Mas não se perca o fio da meada. Não devo falar em atributos físicos. Se e quando o fizesse, não poderia comparar Bush a um John Kennedy. Este, segundo as mulheres, era bonito. Sua aventura guerreira foi testada no Vietnã. Ali, pegou o bonde andando. Fez, também, uma brincadeira na Baía dos Porcos, um fiasco total. E houve, além disso, uma desigualdade plena: Bush mata; Kennedy foi morto.
Tento extirpar a televisão da minha vida. Não suporto a batalha que dizem ser asséptica. Horroriza-me o Bush. Para que não me digam parcial, ou iraquiano, repugna-me, igualmente, a imagem de Saddam. No fim das contas, Bush traz suas trezentas mortes e colherá mais algumas no seu embornal dos infernos. Depois disso, cansado, ordenará o café da manhã (breakfast). Satisfeito com a vitória, sentirá fome. A mordida no hambúrguer e o gole de coca-cola bastarão. Dormirá em paz. Ao lado, como na tenda dos milagres, aparecerão os pedaços, em cera amarelada, daqueles que explodiram sob a tecnologia digital, alguns identificados por códigos de barra: “Made in USA”.
* Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e quatro anos. Esta crônica é personalíssima. Retiro meus títulos.
**Se não quiser receber meus pontos finais, bloqueie meu endereço eletrônico (pslfa@uol.com.br). Nada, no mundo,  pode ser feito contra a vontade. Respeito a privacidade de cada qual.
***Consulte meu site, se quiser. Esta crônica tem vídeo (www.processocriminalpslf.com.br).

Houve um professor, Olavo de Paula Borges, jurista de extremo respeito, que teve a morte apressada, nos idos de 1970, por uma guerra qualquer. Sofria intensamente à leitura dos noticiários. Vez por outra, o jornal mostrava a foto de criança sem pernas ou de viúva arrancando os cabelos enquanto velava o cadáver do companheiro. Ainda existe gente assim: a hecatombe do Iraque acontece muito longe, mas é muito perto. Vê-se tudo como se fosse um daqueles jogos que fazem as delícias da garotada. Encontrei um moleque, outro dia, puxando as abas do paletó do pai, enquanto praticamente arrastado no chão liso de um Shopping Center. Queria a última versão de uma daquelas malditas ficções eletrônicas…
Olhei George W. Bush na televisão, ontem (Foi ontem?). Um descuido qualquer dos técnicos permitiu que o mundo todo captasse a imagem do presidente dos Estados Unidos enquanto se preparava para deitar falação aos povos. Tinha o rosto alisado por maquiagem. Fez um gesto de impaciência. Estava censurando alguém, à direita. Veio uma avantajada assessora, à esquerda.  Alisou-lhe a roupa nos ombros, para tirar o pó – ou a caspa. O presidente retomou a impassibilidade e a imagem desapareceu. Voltaria depois, olhos fixados no “teleprompter”, um boneco quase imóvel, lábios finos pronunciando, devagar, um conjunto de quinhentas palavras salivando, aos respingos, o veneno que saltitava, mortífero, sobre as ruas da antiga Bagdá.
O povo americano, segundo estatísticas (pesquisas de opinião), parece gostar, em maioria, do espetáculo dantesco. Há manifestações contrárias, certamente, mas nenhum político, agora, se anima a agir sem consultar seus técnicos em comportamento. Assim, os americanos do norte, a não ser que me engane, sustentam, em porcentagem grande, os atos de seu líder. Todo ser humano tem currículo. Os animais têm “pedigree”. O passado de Bush é complicado. Chegou à presidência com o “handicap” de 300 execuções à cadeira elétrica, como no jogo de “golf”, herança de quando governava o Texas. No mais, é um homem de estatura média, nunca filmado de perto enquanto anda. O alto de sua cabeça, nas olhadas que lhe dei, chegava ao braço de Chirac, mais baixo, aliás, o último, que seu antecessor De Gaulle. Mas não se perca o fio da meada. Não devo falar em atributos físicos. Se e quando o fizesse, não poderia comparar Bush a um John Kennedy. Este, segundo as mulheres, era bonito. Sua aventura guerreira foi testada no Vietnã. Ali, pegou o bonde andando. Fez, também, uma brincadeira na Baía dos Porcos, um fiasco total. E houve, além disso, uma desigualdade plena: Bush mata; Kennedy foi morto.  Tento extirpar a televisão da minha vida. Não suporto a batalha que dizem ser asséptica. Horroriza-me o Bush. Para que não me digam parcial, ou iraquiano, repugna-me, igualmente, a imagem de Saddam. No fim das contas, Bush traz suas trezentas mortes e colherá mais algumas no seu embornal dos infernos. Depois disso, cansado, ordenará o café da manhã (breakfast). Satisfeito com a vitória, sentirá fome. A mordida no hambúrguer e o gole de coca-cola bastarão. Dormirá em paz. Ao lado, como na tenda dos milagres, aparecerão os pedaços, em cera amarelada, daqueles que explodiram sob a tecnologia digital, alguns identificados por códigos de barra: “Made in USA”.

* Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e quatro anos. Esta crônica é personalíssima. Retiro meus títulos.
**Se não quiser receber meus pontos finais, bloqueie meu endereço eletrônico (pslfa@uol.com.br). Nada, no mundo,  pode ser feito contra a vontade. Respeito a privacidade de cada qual.
***Consulte meu site, se quiser. Esta crônica tem vídeo (www.processocriminalpslf.com.br).

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