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O Brasil ainda tem índios. (com vídeo)

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
O Brasil ainda tem índios


                                                                                   


 

 Jornais de quarta-feira, 12 de março, trazem notícias de conflito entre índios e policiais militares em terrenos submetidos a reintegração de posse, no Estado do Amazonas. Uma das fotografias é antológica: criança no colo, uma índia procura impedir que soldados, armados e portando escudos, a retirem da terra onde provavelmente tem sua palhoça e abriga a família. O indiozinho, nu em pêlo salvo as sandálias, parece não saber o que está acontecendo, mas há de levar aquela cena para o resto da vida, pois dizem que o ser humano não esquece os traumas da infância.

 Dentro do contexto, a imagem posta no noticiário é apenas um pequeno exemplo do jornal inteiro. A “Folha de São Paulo” traz na primeira página, além da foto trágica, relatos de comportamento omissivo da Secretaria de Segurança quanto a homicídios praticados por PMs, comenta uso de bomba por ladrões que pretendiam roubar transportadora e relata o banimento, pela mídia chinesa, de atriz politicamente incorreta. Ainda na primeira página há comparação entre indenização ofertada a família de terrorista e aquela outra, bem menor, reservada a quem perdeu uma perna. Nos cadernos do meio consta crítica dos Estados Unidos à corrupção do Brasil. Na seção cotidiano há anúncio de morte por engano de um rapaz. Depois é anunciado que se procura localizar jovem que ateou fogo numa colega. O jornal “O Estado de São Paulo” vence, hoje, na competição por divulgação de violências. No interregno, deve haver alguma notícia boa, ou seja, alguma particularidade permissiva de otimismo em relação a obtenção de dose maior de felicidade. Não há nada assim, ressalvada atividade do Banco Central para evitar depreciação maior do dólar, circunstância que não interessa muito a quem não o tenha escondido sob o colchão. Resta, de tudo, a consciência de que até o Poder Judiciário se reveste de agressividade, mantendo em atividade as interceptações telefônicas e as condutas adequadas à colocação de uma pá-de-cal na vida profissional de juiz federal implacavelmente perseguido e, conforme consta, embora não se curve, vencido no conflito judicial, embora resistindo valentemente à série grande de acusações que se lhe fazem.

 Sobra então, da leitura dos matutinos, o retrato daquela índia tentando estancar a invasão da sua maloca. Bem ou mal, enquanto segura o escudo do beleguim, ela conserva a consciência de que é preciso manter muito viva a capacidade de reação contra as inclemências do tempo presente. Ela não tem com que resistir, a não ser uma demonstração de que aquela criança significa o futuro de um país em que as autoridades possam dar exemplo outro que aquele sanguinolento exposto aos particulares. Realmente, quando a polícia mata, o juiz invade domicílios, intercepta a privacidade do cidadão e lhe esvazia, sem razão maior, as gavetas do quarto de dormir, é sinal de que as críticas advindas do exterior têm procedência. Quanto aos jornais, vivem, em grande parte, da própria agressividade colhida nas ruas. Assevera-se que o povo gosta…

*Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e nove anos.

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