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MEC investiga seriedade de vestibular. (com vídeo)

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
MEC investiga seriedade de vestibular
(Ou “Será que o menino é um gênio?”)


 

 Ganhou relevo no noticiário o fato de um menino de 8 anos ter sido aprovado em vestibular para Direito no processo seletivo da Universidade Paulista, campus de Goiânia. O garoto, cujo nome não importa, foi aprovado e obteve matrícula na faculdade de direito da UNIP. Jornais de 07 de março de 2008 acentuam que o menino já teria ido à faculdade para conhecer as instalações. Segundo a família, o infante pretendia, realmente, ingressar naquele curso.

               Incidentalmente, vi e ouvi entrevista do vestibulando num canal de televisão. A criança, toda animada, revelava seus planos para o futuro e não descrevia qualquer dificuldade no enfrentamento das questões postas no exame vestibular referido.

               No entremeio das notícias, revelou-se que o Ministério da Educação se devota a reduzir 15.000 vagas nos diversos cursos de Ciências Jurídicas e Sociais instalados no país, depois de uma outra arremetida que teria diminuído 6.000 possibilidades de ingresso. Tocante à diminuição de vagas, cuida-se de atividade salutar, embora a tibieza de anteriores dirigentes do MEC (não do atual, que parece ir muito bem) tenha contribuído para verdadeiro apodrecimento da dignidade da grande maioria das instituições que se voltam à formação de bacharéis em direito no Brasil. Relativamente ao menino aprovado pela UNIP de Goiânia, não se espantem os leitores: os processos de seleção, hoje, significam verdadeiro amealhamento de candidatos, não sabendo mais as escolas o que fazer na duríssima competição gerada pela multiplicidade de faculdades. Dentro do contexto, o vestibular se transforma em uma fantasia, ou falácia. Há municípios com sete ou oito faculdades de direito, todas autorizadas, isso significando que algo muito ruim aconteceu nos respectivos processos tramitando no MEC. Relembre-se: há pouquíssimo tempo o Ministro da Educação decidiu expurgar o conselho que, ali no Ministério, debatia, aprovava ou repelia a chegada de novas instituições, sabendo-se que aquele grupo era composto, em parte, por representantes, abertos ou disfarçados, das instituições dominantes.

               A Ordem dos Advogados do Brasil, Secção de Goiás, quer saber como o menino foi aprovado. O MEC, assemelhadamente há de conhecer, mediante requisição das provas, a qualificação intelectual do garoto. Respeitante a isso, lembro lições aprendidas quando, adolescente ainda, o cronista estudava o francês. Havia um parágrafo respeitante a Pascal. Em tradução livre, lá vai: “Blaise Pascal, ainda menino, espantava sua irmã, M. de SÈVIGNÉ, com noções de geometria que ele não conhecia”. Nos idos de 1949, era comum aos moços e moças o estudo do francês, do inglês, do castelhano e do latim. O cronista se recorda, inclusive, de horas passadas no pátio do colégio marista, fronte voltada contra o tronco de uma árvore muito antiga, decorando as “Catilinárias”, enquanto cumpria castigo. É coisa para não esquecer. Ainda em tradução perneta: “Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência?” Ou então as cartas de Cícero: “Si vales, bene est. Ego valeo”.

               É possível que o menino aprovado na UNIP seja versado nas primeiras letras como o jovem do passado, se bem que, hoje, não se indague mais sobre as conjugações latinas no vestibular: “Ego, mei, mi, me, me. Nos, nostrum, vobis, vobis, vos”. O que se exigia de um jovem pré-universitário nos tempos antigos não se pode pedir hoje. De repente, o menino de 8 anos aprovado na UNIP é o Blaise Pascal dos tempos modernos. Ou então aquele setor da Universidade vive a poder de picaretagem.

               Exponham-se as provas do garoto. Se forem adequadas, vale a pena carregá-lo ao colo, oferecendo-se-o como exemplo de diferenciação. Espanta, entretanto, a possibilidade de se lhe permitir, mal saído da primeira infância, tomar assento numa carteira para a prestação de vestibular comprovando, evidentemente, a idade e a identidade. Vale uma última reflexão: Os pais do garoto teimam, agora, em lhe fazer matrícula. Não o conseguirão mas, se o menino for amadurecido como afirmam, não há de sofrer trauma muito grande com a rejeição.


*Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e nove anos.

 

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