GRATIDÃO

 

(Roberto Delmanto)

 

Ao lado do amor e da amizade, a gratidão, embora rara, é dos mais belos sentimentos humanos. Não é o caso dos clientes dos criminalistas, acusados ou mesmo vítimas, que embora atendidos com sucesso, em geral  não gostam de reencontrar seus antigos patronos. A recordação dos momentos difíceis vividos e as confidências feitas talvez expliquem esse comportamento.

Meu pai Dante Delmanto, que pontificou na advocacia criminal paulista e brasileira durante meio século, teve três exceções.

Quando Jânio Quadros sucedeu a Ademar de Barros no governo bandeirante, fez processar, administrativa e criminalmente, quase toda a cúpula da Polícia Civil, os chamados “cardeais”. Entre eles, um diretor do DOPS em época anterior à ditadura militar quando esse departamento gozava de bom conceito. Absolvido e reconduzido ao cargo, veio a dar inúmeras demonstrações de gratidão.

Na manhã de um  7 de Setembro, fomos acordados pelo som de corneta de uma guarnição da então Força Pública, hoje Polícia Militar, que desviando-se da sua rota pela Avenida Brasil em direção ao Parque de Ibirapuera, entrara na rua em que morávamos, postando-se defronte à nossa casa para homenagear meu pai. Só mais tarde viemos a saber que a iniciativa partira do ex-cliente, amigo que era do Comandante da Corporação.

Enquanto viveu, o antigo Delegado e a esposa não deixavam de nos visitar no Natal, levando sempre um presente para meu pai. Depois que o marido morreu, sua mulher continuou a manter o mesmo gesto.

Outra exceção veio de um rico empresário judeu de origem européia, acusado de lesar uma grande instituição financeira. Se fosse condenado, além de ser preso, corria o risco de perder toda sua fortuna. Inocentado, enquanto viveu nunca deixou de presentear meu pai nas festas de fim de ano.

A derradeira exceção veio do diretor de um importante Banco, cujo filho, em companhia de outros jovens da alta sociedade, fora acusado de seviciar uma prostituta. Absolvido após rumoroso processo, seus pais jamais se esqueciam do meu no  final do ano.Já o filho, depois que os genitores faleceram, quando se encontrava comigo, fingia não me reconhecer.Coisas do ser humano que, bem ou mal, sempre nos surpreendem …

* Esta crônica é dedicada ao grande criminalista Paulo Sérgio Leite Fernandes, amigo certo  das horas incertas

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