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Ainda a crise Ministério Público x OAB. (com vídeo)

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Ainda a crise Ministério Público x OAB


 

 Parece ter sido superada a crise que ocupou, durante alguns dias, as atenções de algumas centenas de promotores de justiça e alguns milhares de advogados paulistas. Cuidava-se, todos sabem, de uma suposta lista correspondente a autoridades em geral, sem exceção de promotores públicos, submetidas a processos de desagravos estatutariamente previstos. Comentando a particularidade, o Procurador-Geral de Justiça Rodrigo César Rebello Pinho teria afirmado que aquele comportamento se assemelhava a uma atitude fascista. Repicou a liderança dos advogados, acentuando, pela voz do presidente do Conselho Federal e da presidência do Conselho Seccional, que a digna Instituição do Ministério Público tinha, sim, contas a prestar do passado remoto ligado à ditadura inaugurada nos idos de 1964. Manifestações daqui e dali se sucederam, esvaindo-se os ecos no surgimento de fatos novos, políticos uns, jurídicos outros, chamando a atenção da classe e do povo em geral. Na verdade, a ciclópica movimentação de fatos dramáticos é tamanha, hoje, a ponto de poucos eventos resistirem a mais de vinte e quatro horas de repercussão. A briga entre o Procurador-Geral de Justiça Rodrigo Pinho e a OAB perde relevo à notícia da farsa engendrada pela mulher que, dizendo-se médica e seqüestrada por ladrões, afirmava que os bandidos lhe haviam cortado os pulsos, atirando-a num rio posto quinze metros abaixo de uma ponte. Aquela moça havia, certamente, impressionado a todos com a descrição da ignomínia do ato praticado pelos meliantes. Descobre-se, agora, que a infeliz buscava esconder uma tentativa de suicídio. Diante disso, carece de relevo a ofensa feita pelo doutor Rodrigo. Sai nas águas, a menos que haja nova investida, tendo-se a impressão de que as duas partes, uma enristada nos bons propósitos, outra censurada na atividade menos pensada, voltam ao silêncio armado, esperando o próximo movimento, se houver.

               O cronista já foi criança (todos já foram crianças). Quando o escriba quer definir a personalidade de alguém, lembra-se dos anos em que cursava colégio Marista (Família mineira que se preza quer ter um padre). Com o cronista não deu certo, em razão de incidente não muito agradável com a sobrinha do sacristão, coisas da vida. De qualquer forma, quando dois moleques, lá no colégio de padre, ciscavam para brigar, traçava-se uma linha no chão com um graveto qualquer. Um dizia ao outro: “- Cospe aqui, do meu lado. Si ocê for home!” Se houvesse a cuspida, rolavam os dois na areia do pátio coalhado de povaréu entusiasmado.

               Briga de gente grande também é assim. Daquele tempo, lembro de um garotinho chamado “Abobrinha”. Brigou com adversário no futebol, hoje advogado eminente exercendo a profissão em São Paulo. O cronista se lembrou disso porque o viu na rua, mês passado, já antigo mas ainda espadaúdo. Lutaram os dois, sim, ele e “Abobrinha”, sessenta anos atrás. Em desvantagem depois das cuspidas de praxe, mordeu fundo a bochecha do outro. Se vivo estiver e se cirurgia plástica não fez, “Abobrinha” carrega até hoje, certamente, a marca dos dentes do oponente.

               Não se cospe do outro lado. Se cuspida houver, alguém deve passar, astuto, o pé em cima do cuspe (parece que Márcio fez isso, embora ainda nos deva algumas explicações de quando era Ministro. No balanceamento entre advocacia e o Ministério da Justiça, salva-o dose grande de afeto). É não deixar, para o futuro, bater muito sol na cabeça porque, de repente, um morde a bochecha do outro e, se isso acontecer, fica muito difícil curar a mordida. É esperar para ver…


*Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e nove anos.

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