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Perfume de mulher. (com vídeo)

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Perfume de mulher
(Ou “Teoria Finalista da Ação”)



 

 Abro o matutino preferido – preferido não, é o único de quem ainda não falei mal ou critiquei – e só encontro notícias de tragédias, sem contar o obituário. Meus amigos, conhecidos e inimigos estão indo embora para o outro mundo ou lugar semelhante. Não passa um dia sem que um deles parta… pelo sim pelo não, abro o jornal e não encontro uma seção sequer sobre nascimentos. É só morte pra todo lado. Daí desisto de ler. São 05h30min. O mundo está dormindo? Não, São Paulo não descansa. O ciclo diário é aproveitado, inclusive, pelas caçambas recolhendo restos de demolição deixados pelos pedreiros no meio-fio dos apartamentos dos ricos. Daí, deixo de lado uma crônica iniciada sobre a teoria finalista da ação, assunto quase obrigatório de penalistas metidos a sabidos e relembro o filme a que assisti ontem: “Perfume de mulher”, com Al Pacino; o enredo é conhecido, inclusive, por qualquer doméstica que vê televisão na cozinha, à revelia da patroa. Um tenente-coronel americano, cego em razão de um acidente com granada durante treinamento, resolve suicidar-se. Vai a Nova York no dia de “Ação de Graças”, acompanhado por um estudante contratado como escudeiro. Aperta ou não aperta o gatilho da pistola contra a fronte? Não, o episódio continua. O militar reformado está hospedado no “Plaza”. Descem ambos ao salão de jantar. Ali, uma jovem está sentada sozinha. A orquestra toca tango. O cego vai à mesa da moça e a convida a dançar. Inicia-se, então, uma cena lindíssima, pois os dois – só eles – bailam no meio do salão. Terminada a música há aplausos, porque hóspedes estão a jantar. No fim do filme, o coronel não se mata. Reencontra a vontade de viver, despede-se do estudante depois de impedir que o moço seja expulso em razão de incidente anterior no colégio e “la nave va”. Aquele cego desenvolvera um olfato aguçadíssimo. Sabia distinguir, nas moças, qualquer perfume, apontando o nome da essência. Há um fecho extremamente romântico: Al Pacino – ou o personagem, é difícil pensar no último – encontra uma bonita mulher, num trecho de rua, à saída da academia onde o menino estuda. Conversam. A certa altura, o coronel afina as narinas e diz, extasiado: “Fleur de Rocaille” … a jovem senhora, espantada, concorda. Vem um “suspense”. Dá-se a entender que um romance vai começar alhures.

               Tenho o outro “Perfume de Mulher”, com “Vittorio Gassman”. Não sei qual dos dois é melhor. Ligo-me em ambos. Quanto a “Al Pacino”, nunca o vi pessoalmente nas minhas andanças pela América do Norte. Sentei-me perto de Gassman, certa vez, num restaurante que ele freqüentava, perto da “Via Ripetta”, em Roma. Faz tempo. Ele estava, também, caminhando rapidamente para a velhice. Tocante ao perfume, ainda prefiro o “Arpège”. Vem um frasco ou outro ao Brasil, no descaminho por certo, tomando-se muito cuidado com falsificações repetidas. Se comprado na Europa é muito mais confiável.

               Para não se dizer que não cuidei de crimes na crônica: tive um cliente, acusado de falsificação de essências famosas, que me levou certo dia a uma fabriqueta montada num fundo de quintal. A casa toda rescendia a margaridas, rosas em geral, almíscar e quejandos. Provetas cheias de líquidos coloridos soltavam fumaça sobre o tampo das mesas. “Aramis” – era o nome de guerra do perfumista – queria agradar-me. Deu-me um frasco pequenino, à despedida, recomendando muito cuidado no uso. Esta – disse o falsário – é minha obra prima. Só tenho este vidro. Não consegui, por mais que fizesse, reproduzir a essência. Presenteie-a, se quiser, mas escolha bem, pois não haverá outra dose…

               O frasco está fechado até hoje. Tenho medo de gastá-lo à toa. Ou de não ser autêntico. Nos devaneios da sonolência da madrugada, aquele perfume se entremeia com Al Pacino, Vittorio Gassman, Paris, Roma, o Hotel Plaza em Nova York e os odores vertidos na garagem do perfumista falsificador. A propósito, sentei-me, naquela hospedaria famosa, à mesma mesa em que o coronel cego convida a linda mulher a dançar.

               Desafio os criminalistas metidos, como eu, naquelas becas já esgarçadas, a dizerem que não há, na crônica, ligação com a teoria finalista da ação ou com a rotineira relação de causalidade. No direito penal, causa é a condição sem a qual o resultado não teria ocorrido. E Ponto Final. 


*Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e nove anos.

 

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