Home » Ponto Final » Furto qualificado de quadros famosos. (com vídeo)

Furto qualificado de quadros famosos. (com vídeo)

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Furto qualificado de quadros famosos
(Entre Paris e Ferraz de Vasconcelos?) 

 



  

 Há famoso astro norte-americano que pretendeu substituir o maior “James Bond” de todos os tempos, “Connery”, elevado a “Sir” pela rainha da Inglaterra. O substituto se chama  “Pierce Brosnan”.  Além de personificar o inglês conhecidíssimo, participou de outros filmes. Um destes é a história de um miliardário obcecado por quadros pintados por aqueles  gênios que qualquer livro de arte costuma celebrar em páginas entusiasmadas. O filme, se a memória não falha, se chama “Crown, o magnífico”. O milionário excêntrico pratica, num dos mais importantes museus do mundo, o furto de uma pintura extraordinariamente valiosa, saindo incólume.

               Dizem as boas e as más línguas que há, por aí, muitas obras de arte escondidas em galerias secretas mantidas por criaturas que, de tão ricas, mais não sabem o que fazer com o dinheiro que têm. Verdade ou mentira, todos sabem que a 2° guerra mundial teve, entre múltiplos resultados, aquele de vencedores e vencidos manterem, entre os despojos, um bom acervo de quadros célebres arrancados das paredes das instituições voltadas à preservação das humanidades. Assim, quando uma ou outra pintura célebre desaparece dos murais, não se surpreenda a cidadania, pois apenas se repete, em mínimo escalão, o que nações variadas já praticaram.

               O Museu de Arte de São Paulo tem, obviamente, dezenas de obras diferenciadas. Não vale, numa curta crônica policial, espelhar uma ou outra. Basta dizer que aquilo deixaria a babar um discípulo ou seguidor entusiasmado do personagem retratado por “Pierce Brosnan” no filme já identificado. No fim das contas, a subtração de um “Picasso” e de um “Portinari” do Museu de Arte de São Paulo, hoje muito sofrido aliás, parece ter sido consumado por dois suspeitos de baixa estirpe, não por um ladrão de casaca. Realmente, “Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno Maria de los Remedios Cipriano de la Santissima Trinidad Ruiz y Picasso”, tão decantado em várias biografias e personificado em filmes clássicos (assisti a um deles, Andy Garcia faz Modigliani), merecia manipulação na mais pura seda. Diga-se o mesmo de “Portinari”. Quanto a este, na minha memória, faz par com “Brecheret”. Lembro, do último, um mármore de não mais que trinta por dezoito centímetros (Mulher deitada em dossel), que não pude adquirir quando jovem, ou trocar  por alguma coisa valiosa.

               Já se vê que o cronista gosta muito de arte em geral, preferindo as esculturas, porque são em três dimensões e podem ser tocadas. Certa vez, no “Louvre” o cronista quase foi preso porque se atreveu a tocar  o dorso de um nu (era mulher, com certeza), admirável mármore posto em um dos corredores. Toda vez que penso no “Masp” memorizo “Pietro Maria Bardi”. Passei uma tarde com ele, muitos anos atrás, na identificação (ele era o perito) de um barroco brasileiro que se dizia ter sido produto de crime. Foi ele, sabe-se muito bem, um grande arrecadador de obras guardadas naquela casa de cultura que deveria estar sendo melhor administrada pelo Governo.

               Voltando-se aos ladrões (ou aos suspeitos), é preciso reconhecer e admitir que a infração, grave em tese (furto qualificado), tem algo de romântico. Duas pessoas culturalmente deficientes, providas de ferramentas não sofisticadas, entram no museu e levam consigo apenas duas telas, nas molduras originais, sem sequer enrolá-las nos canudos apropriados ao translado. Só aquelas duas, um “Picasso”, valiosíssimo certamente, e um “Portinari” agraciado com a fama de ser dos melhores pintores que o Brasil já produziu. O Museu de Arte de São Paulo tem outras obras exponenciais, mas os hipotéticos infratores teriam feito uma opção rapidíssima. No fim das contas, os ladrões foram presos e os dois quadros foram localizados, intactos e protegidos, num casario qualquer situado na cidade-dormitório Ferraz de Vasconcelos. Uma honra para a cidade, com agradecimento aos ladrões. Se pertencentes à camada mais baixa da população, cuidaram, apesar disso, da não destruição daquelas obras-primas. Se o fizeram a mando de alguém cumpriram o mandato cuidadosamente mas, não se igualando a um “Pierce Brosnan”, não conseguiram levar a bom termo a subtração, pois a sofisticação do furto não se igualou à proteção dos vestígios da escapada.

               O Ministério Público do Estado de São Paulo, sempre alerta, suspeitava de que as duas telas já estivessem no exterior. Se e quando assim fosse justificar-se-ia, eventualmente, uma viagem rápida aos berços da cultura européia, contracenando, lá, com algum Serviço Secreto especializado nesse tipo de repressão. No meio disso, quiçá, uma revisita ao “Louvre”, ao Museu do Vaticano, ao “Prado” e, quem sabe, à Catalunha, tudo para atualizar a cultura. Por sorte, ou por azar dos investigadores, “Picasso” e “Portinari” estavam em Ferraz de Vasconcelos, que, seguramente, embora centro do cansaço de milhares de trabalhadores voltando da metrópole, não é ponto turístico visitável.

               Do lado do cronista, meio século depois de iniciadas as lides na advocacia criminal, vale a sugestão a que os desastrados infratores sejam postos, ao menos, em prisão especial ou, melhor ainda, em prisão domiciliar, devendo ser alertados de que seguraram nas mãos dois exemplos daquilo que o País melhor tem em repositório da arte pictórica internacional. Prefira-se isso a seqüestrar criança, maltratando-a e exigindo resgate. Prefira-se isso a roubar e, quem sabe, praticar latrocínio. No fim de tudo, o “Masp” continua ali, decantado no mundo inteiro em razão do acidente. A visitação aumenta, o sistema de segurança se aperfeiçoa, o governo do Estado se lembra de que aquilo está partindo para a decadência e os bandidos, depositados num “CDP” qualquer, hão-de-ter seu dia de glória, se afiançados não forem (quem se atreve?), degustando suas “quentinhas” num canto de cela arduamente disputado. 

 


*Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e nove anos.

Deixe um comentário, se quiser.

E