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A morte é triste na madrugada. (com vídeo)

 Paulo Sérgio Leite Fernandes
A morte é triste na madrugada


 

 A morte é sempre triste. Na madrugada é pior. Morrer dentro de um cárcere gelado, no meio das sombras da noite que se vai é, sem sombra de dúvida, uma extravagância a mais dentro dessa última e terrível experiência. O moço Ryan Gracie, aos trinta e três anos de idade, depois de uma vida consagrada às artes marciais (cinco vezes campeão do mundo em Jiu-Jitsu), morreu estirado num cárcere do 91° Distrito Policial de São Paulo. A causa da morte é, ainda, um ponto de interrogação. Sabe-se apenas que lugar de doente, de traumatizado ou de moribundo colhido em meio das fantasmagóricas esquinas paulistas, é o hospital, nunca a quadratura de uma cela infecta.

               A família Gracie se desespera. Reclama justiça. Investe contra quem tratou do moço naquela emergência. Pode ter razão quanto a tratamento inadequado, mas é preciso realçar que o trágico incidente não vem sozinho. A metrópole é reduto de centenas de dramas noturnos. Há homens e mulheres espancados e recolhidos sem medicação; há mortes violentas dentro e fora de camburões policiais; há violência contínua nas avenidas, ruas e ruelas. Não existe, dentro do sistema de perseguição e captura posto a viger pela polícia paulista, contemplação maior por aqueles que são colhidos e encarcerados, seja na simples custódia correcional, seja na prisão provisória resultante da flagrância. O método de aprisionamento brasileiro faliu há muito tempo, inexistindo possibilidade de restauração do equilíbrio a curto, médio ou longo prazo. Temos, no Estado de São Paulo, cento e cinqüenta mil encarcerados, havendo milhares de mandados não cumpridos. O moço Ryan Gracie faleceu em silêncio, desvalido portanto. Quantos se vão em circunstâncias análogas, é mistério sem esclarecimento. Os mendigos são remetidos ao Instituto Médico-Legal, servindo alguns, não identificados, às mesas de anatomia das Faculdades de Medicina. Outros são reclamados e têm enterro decente. Mais importante é dizer que a maioria chega vitimada por tiros, esfaqueamentos e provocações outras resultantes de agressões.

               Já vi insano mental libertado depois de cinco anos de aprisionamento num cárcere comum. Davam-lhe, às vezes, banho com mangueira de regar jardim, não precisando retirar-lhe as vestes, pois andava nu dentro da jaula que lhe servia de quarto. Coisas piores aconteciam e acontecem no país. No meio disso, o moço se foi, não algemado à cama de uma UTI de hospital, mas deitado num leito de cimento. Merece dó, e muito. Mas tudo continuará como dantes.


*Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e oito anos.

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