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Churrasco na Prisão

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Churrasco na Prisão

  churrasco
 

 


         

      Havia, anos atrás, memoráveis festivais de música popular. Devem-se a eles os nascimentos artísticos de Elis Regina, Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, João Gilberto e Nara Leão, entre muitos outros que a memória não ajuda a encontrar. Lembro-me de um, entretanto, com atualidade difícil de imitar. Sérgio Ricardo competia. Tinha uma canção chamada, se não me engano, “Liga das Nações”. Era uma história parecida com a ONU e a guerra do Iraque. Estava fora de contexto. Se cantada hoje, seria famosa. O público não gostou. Vaiou estrepitosamente o concorrente. Este, gênio ruim, não conversou muito. Livrou o violão das correias e o atirou  na platéia. Um gesto simbólico, certamente, pois o instrumento era leve. Deve ter sido carregado por um espectador qualquer. Dia seguinte, entretanto, um jornal popular, daqueles que vertem o sangue da madrugada, publicou o incidente  sob manchete escandalosa: “-Violada na platéia”. Foi edição lendária. Esgotou-se em poucas horas, levando aos editores a efêmera satisfação de saberem que, ao menos naquela manhã, aquele jornal não serviria às empregadas para proteger o chão da cozinha do xixi do gato ou da vasilha do cachorro. Os leitores pensavam, em princípio, que uma jovem havia sido violentada sexualmente durante o espetáculo.

               Os títulos de noticiários são, as vezes, extravagantes. Os órgãos de imprensa têm seus “mancheteiros”. Pegam os textos e lhes dão nomes esquisitos . Exemplo típico, embora cuidando de coisas próprias, é José Simão (o único articulista que leio na “Folha”, exceção feita a Cony, de quem sou amigo, embora ele não saiba).

               Indagar-se-á qual a ligação entre os festivais da Record e este “Ponto Final”. É simples: angustiado com a lentidão com que as ações tramitam na justiça paulista, encontrei um título mas não lhe encaixei o texto. A história veio devagar, sofrida, marcada pela desgraça, tocada pelo desconsolo dos miseráveis. Refere-se ao caminho desesperado de um moço que há dez anos, lá na Ibiúna de Fernando Henrique, fez uma bobagem qualquer. Em suma, tomou um porre e foi passear com o carro do patrão. A polícia o prendeu. Um investigador algemou o rapaz na grade de uma cela e foi almoçar. A delegacia ficou vazia. Deixaram o moço com cigarro, fósforos e cinto. Qualquer leigo sabe que preso não pode ficar com essas coisas. Pode, no mínimo, enforcar-se como Wladimir Herzog. Vai daí, o encarcerado quis fumar. O fósforo aceso caiu no cimento. O preso tinha companheira: uma velha motocicleta exibia as entranhas cheias de gasolina. O cárcere se incendiou. O moço estava bêbado, mas o álcool não anestesiou as lambidas gulosas das chamas que lhe subiam pelo corpo, começando pelos pés. O povo de Ibiúna ouviu os gritos e sentiu o cheiro de churrasco. Parecia a comemoração de um dia festivo. Não era. O menino, preso às grades pelos anéis de aço, não conseguia safar-se. A chave estava na cintura do policial ausente. Alguém conseguiu apagar o fogo, espantando um curioso que se recordava de um filme de “Mad Max” (Na cena, deixam um serrote com o algemado. Ou serrava os ossos ou morreria queimado. Morreu).  Meu preso perdeu os pés e metade de uma perna. Acionou o policial e o Estado há dez anos. Conseguiu, na Vara de origem, indenização de um salário mínimo mensal (Pé, perna e moral de esmoleiro têm pouco valor). Apelou. O processo aguarda distribuição há três anos no Tribunal de Justiça.

               Lá na Igreja de São Gabriel, que freqüento aos domingos (a missa é curta, Deus tem paciência comigo), aparecem pedintes mostrando “santinhos” de doentes. Um tem câncer, outro precisa de remédio milagroso, um último exibe deformação repugnante. Valem os exemplos. Imitem-se os mendigos. Eis, no início da crônica, o “santinho”, preservado o anonimato, do churrasco em que se transformou o imprudente autor do furto de uso. Espera a decisão da Justiça há um decênio. Se demorar mais, vou precisar deixá-lo, em testamento, a advogado mais moço. Ao receber o infeliz como cliente, eu tinha, em Ibiúna, uma das poucas alegrias da vida: um veleiro muito branco. Tem nome de mulher. O vento, agora, vem com violência demais. No fim das contas, ou do conto, o jovem transformado em churrasco continua um número no Cartório Distribuidor do Egrégio Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Mandei uma petição para lá, pedindo urgência. O “santinho”foi em anexo, como se diz no palavreado forense. De repente, alguém vê, fica com dó e doa a distribuição.               

* Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e quatro anos. Esta crônica é personalíssima. Retiro meus títulos.

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