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Bush mata crianças?

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Bush mata crianças?

 Preservada a autoria: Ramzi Aidar – AFP  Se e quando houver custo na publicação, basta cobrá-lo. Será imediatamente pago.



 

         Mata, é claro. Os jornais e televisão trazem fotos impressionantes de cadáveres de crianças, expostos sobre a areia, vítimas de mísseis inteligentes ou projéteis de armas leves. Bush, evidentemente, sofre com o puericídio. Não há, no mundo, quem lhe atribua intenção específica  de liquidar os infantes. Isso acontece por força do desespero. Precisa vencer a guerra. Outro ditador lhe resiste, movido pelo ódio e por tradição guerreira multimilenar. O povo do Iraque, de seu lado, reage enquanto escabuja o sangue da tragédia. A população de Bagdá vê os meninos e meninas mortos. Não há tempo nem possibilidade de enterros decentes. Bombas enormes copiadas dos velhos canhões de metralhas cujos canos, cheios de pedras, pregos, parafusos e pedaços de ferro espalhavam a destruição num raio de muitos e muitos metros, explodem antes de chegar ao chão, vomitando munição cientificamente fabricada, não mais a sucata socada no ventre dos arcabuzes de bronze das batalhas do século XVII. Aquilo varre o solo lancetando o que encontra. Mísseis, bruxas fragmentadoras e outros meios de mortalidade não foram ensinados a poupar infantes. A tecnologia americana não chegou a tanto. Fábricas e laboratórios texanos não reuniram sábios diversos, trepados em lustrosas botas de montaria, para montagem, no vértice dos petardos, de neurônios eletrônicos identificadores de vítimas infantis. Do lado americano, morrem alguns, igualmente, moços com idade  entre 21 e trinta anos, louros guerreiros tirados às pressas dos fins-de-semana passados nos balcões dos concessionários Mac Donald’s, “pretzels” engolidos às dúzias entre goles daquela mistura estranha de coisa alguma com coisa nenhuma. A diferença está no número de mortos, nas roupas que os defuntos vestem (coletes de teflon ou vestidinhos rodados) e no fato de os “vickings” serem atacantes.

         Bush sabe o significado de assassínio em massa. Corre o risco, hoje realidade, de passar à história como genocida. No dicionário, o genocídio é delito contra a humanidade, definido pela ONU. “Consiste no emprego deliberado da força, visando ao extermínio ou à desintegração de grupos humanos, por motivos raciais, religiosos, políticos, etc”. Não há exemplo mais preciso disso. A guerra do Iraque está chegando ao fim. No ocidente, um autocrata moderno lê as escrituras. Pára num determinado trecho. O faraó mandara trucidar todos os primogênitos do Egito, movido pelo temor de que um deles se transformasse em líder dos judeus. Salvou-se um menino, posto num cesto a navegar nas mansas águas do rio Nilo. A própria filha do faraó salvou a criança. Moisés cresceu e levou a nação à sobrevivência, decálogo na mão, apontando o caminho da ressurreição política.

         Bagdá tem primogênitos salvos pela areia. Vão crescer. Alguns exibem, na carne, as cicatrizes deixadas por projéteis lançados pelos trigueiros comedores de carne de porco. Vai acontecer fora do tempo do Bush. O faraó americano espalhou um vírus cujo antídoto foi descoberto há milhões e milhões de anos. Em Bagdá, não resta pedra sobre pedra mas existem, ao redor, rios e rios de areia. Sobrevivem os meninos. Alguém os recolherá. E tudo continuará com dantes, misturando-se o futuro no sangue dos inocentes, na ira dos sobreviventes e na coca-cola dos invasores. O dia do faraó há de chegar também. Sobre a lápide, algum religioso bem-intencionado mandará erigir um símbolo sofisticado: a cruz de cristo enrolada numa torre de petróleo. Deve dar certo.                

 Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e três anos e Presidente, no Conselho Federal da OAB, da Comissão Nacional de Defesa das Prerrogativas.

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