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Bagdá caiu

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Bagdá caiu
(Ou “Bush adota o menino maneta”)
 


               Dizem que Bagdá caiu. Uma enorme estátua de Saddam foi derrubada pelos americanos, no centro da capital iraquiana. O povo comemorou. Ele sempre aplaude os vencedores.  É assim desde o tempo das cavernas. Nossos antropófagos degustavam os inimigos vencidos, depois de os engordarem durante alguns dias, numa convivência mística. Americanos e ingleses fazem o mesmo. Aliás, todas as batalhas terminam assim. Os naturais aproveitam a paz imposta e saqueiam lojas, casas, templos e frigoríficos, carregando eletrodomésticos, roupas, alimentos e chinelas dos avós mortos. Os jornais trazem fotografias de alguns saqueadores, homens e mulheres rindo pelo canto das bocas, como hienas famintas. Vêem-se alguns com sapatos amarrados no peito, à moda de grandes e estranhos berloques. Os soldados vitoriosos passeiam em volta, óculos escuros sombreando a visão apocalíptica, atentos ao menor sinal de sobrevivência de adeptos do ditador. Afinal, seria tragicômica a trajetória de balas perdidas atravessando o coração de soldados dominadores. Seria o tijolo caindo de um prédio em construção na cabeça do transeunte assobiador do hino nacional americano ou o atropelamento de turista postado na avenida enquanto trocada a guarda do palácio de Elizabeth, a rainha emudecida, os lábios reais da sogra de “Lady Di” arrolhados pelas traquinagens do menino prodígio gerado no Reino Unido. A guerra do Iraque, no fim das contas, foi chacina múltipla. Poucos invasores morreram. Alguns sucumbiram em razão do denominado “fogo amigo”. Uns poucos foram chamuscados por antigos mísseis e sorteados por projéteis disparados de blindados exportados, tempos atrás, por uma falida empresa brasileira. Não se fale de força aérea. Tivessem-na os iraqueanos e teriam lutado com cuspe contra a baba dos demônios aparentados (no fim, são todos maléficos). Acabou-se a guerra, sim. Agora vem o condimento da conquista. Bush passeia sorridente, sobretudo negro a protegê-lo do frio, acenando para ninguém. Há centenas de outros manetas, mas a imprensa escolheu aquele aleijadinho chorão. Quer ser médico, mas não tem mãos. O projétil americano lhe matou os pais. A criança foi sortuda. Uma bomba de urânio empobrecido lhe cortou os braços junto aos ombros. Entretanto, tudo tem solução. Bush e Blair, depois do amplexo fraternal por terem vencido a demanda, vão partir para uma disputa intimista: a de saber qual dos dois vai adotar o menino aleijado, dando-lhe sopinhas todos os dias, segurando-lhe as colheres junto à boca, limpando-o depois das necessidades, trocando-lhe ataduras no corpo queimado e, principalmente, enxugando-lhe as lágrimas com lenços de papel mandados vir da drogaria da Casa Branca ou da farmácia que serve a residência oficial do Primeiro Ministro de Inglaterra. É o mínimo a fazer para purgarem, os dois, o gigantesco pecado cometido. Bush é prático. Já encomendou braços eletrônicos para o garoto. Demoniacamente espertos, seus propagandistas farão expedir passaporte especial para o aleijadinho. Este, satisfeito, passará a viver o sonho americano, transitando pela 5.ª Avenida em carro aberto, enquanto saudado por milhares de cidadãos contentes. Não tem braços nem mãos. Quem se importa?  Alguém lhe espeta na boca, tremulante, uma bandeirola do “Tio Sam”.       

* Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e quatro anos. Esta crônica é personalíssima. Retiro meus títulos.

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