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Quando os ditadores envelhecem

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Quando os ditadores envelhecem
 


               A velhice é fenômeno universal. Há dois fatos absolutamente naturais na vida: nascer e morrer. O ocaso da existência, entretanto, chega para alguns e foge dos outros. Realmente, uns vão para o outro mundo rodeados por familiares e amigos, outras vezes em solidão, mas restam mais tempo com a chamada humanidade. Outros são atropelados, vítimas de raios caindo do céu, escorregam na calçada ou morrem na guerra, enquanto jovens. Há alguns vivendo só trinta e três anos (a idade de Cristo, que era Deus). Houve ditadores com vida breve, mas a maioria ultrapassou os cinqüenta anos. Stalin viveu bastante; Mussolini foi enforcado numa árvore; Hitler era sexagenário; Nikita Kruschev, o russo, morreu babando, o que não é privilégio de autocratas comunistas, pois há heróis libertários que também partem para outra vida em condições menos dignas…

               Não se pergunte qual a relação entre a longevidade e os ditadores. Sabe-se, entretanto, que o ser humano se torna mais tolerante e benevolente quando fica mais antigo. São as denominadas experiências do cotidiano. Em outros termos, a aproximação do momento final leva o ser humano a repensar a existência, levando-o a comportamento diferente. Fidel Castro desafia essa rotina. Dizem que tem 76 anos, um pouco mais, um pouco menos. Quando se insurgia contra Fulgêncio Batista apresentava-se como líder de um povo massacrado pela crueldade de um caudilho satânico. Depois, tomou conta da ilha. Impera, ali, com poderes absolutos, resistindo, inclusive, a Bush, matador de crianças. Na verdade, com ou sem ditadura, independentemente das dificuldades criadas ao novo Governo brasileiro, Fidel Castro até que se comportava de forma a não acidular as direitas e as esquerdas. De repente, manda fuzilar, em quinze dias, alguns cubanos extravagantes que haviam resolvido subtrair um barco, mandando-se em seguida para um lugar qualquer (provavelmente até a Flórida). Isso significa que Castro envelheceu na maldade, porque a infração cometida jamais poderia justificar o extremo do castigo imposto. Motivou, tal ato, uma carta de Saramago a Cuba, publicada nos jornais do dia 17 de abril de 2003. Desse Prêmio Nobel de literatura conheço, sobretudo, o “Memorial do Convento”, em que Blimunda descobria a alma dos homens. Saramago é canhoto, mas censura acerbamente o ato crudelíssimo do ditador ancião. Deste, logo logo, restarão a memória (ruim por certo) e a barba, esta última retratada num busto de bronze até que alguém o empurre para as pedrarias, a exemplo do que se faz, no correr da história, com todos os homens que não souberam, no meio ou no fim do itinerário, reconciliar-se com o Criador.       

 * Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e quatro anos. Esta crônica é personalíssima. Retiro meus títulos.

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