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Um certo Capitão Ubirajara

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Um certo Capitão Ubirajara
(Ou “Klute, o passado condena”)

 


             

            Tenho fixação, desde os tempos em que freqüentava o cinema, em alguns filmes desencontrados. Destaquem-se “Dona Flor e seus dois maridos”, “Casanova” e “Klute, o passado condena”. Dona Flor, extraído da obra magistral de Jorge Amado (gosto deste e de Capitães de Areia), trata de uma viúva jovem, deixada por “Vadinho” e casada, depois, com o farmacêutico tocador de oboé (facultativamente às quintas, obrigatoriamente aos sábados e domingos). Casanova (Dirigido ou produzido por Fellini?) conta a epopéia do lendário sexômano cujo objetivo final era o de seduzir a mulher gigante, aquela que constituía a atração maior do circo, morando numa tenda escura e enorme. Klute (personificada por Jane Fonda) é a história de mulher bem posta na vida, mas perseguida por personagem misteriosa embolada nos  suspeitos antecedentes da grande dama.

         “Dona Flor”, pelo contexto psicológico, é minha preferida. Guarda remotíssima ligação com a “Blimunda” de Saramago (as qualidades de ambas, justapostas, fariam a mulher perfeita). Entretanto, a sedutora Flor e a perturbadora vidente não constituem a razão das reflexões deste Domingo de Páscoa. Cuide-se de assunto mais triste ligado ao denominado”Capitão Ubirajara”, codinome pertencente, segundo denúncias repetidas, a ilustre delegado que ocupa, hoje, posto destacado  na policia de São Paulo. Realmente, aquela autoridade foi diretamente acusada  por duas mulheres de praticar torturas, nos idos do golpe de 1964, dentro das infectas dependências do “DOI-CODI¨ (Rua Tutóia e quejandos). As denunciantes o apontam sem dúvida qualquer. Genoíno, pronunciando-se lá do Planalto, critica também, acerbamente, a nomeação do dito torturador para alto cargo na instituição. Ele  nega, juntando os pés: o esbirro da ditadura seria um homônimo. As denunciantes, antigas terroristas, não mereceriam  credibilidade. O governador Geraldo Alckimim (aquele da polícia duríssima, pretendendo fazer disso campanha eleitoral) afirma, em outras palavras, não ter ligação qualquer com a nomeação do “Capitão”. Tratar-se-ia de delegado de carreira, seguindo trajeto previsto nos regulamentos. Além disso,  passado é passado. A Lei de Anistia, em plena vigência, passou a borracha em tudo, de um lado e do outro. O “Capitão”, se do próprio se tratasse, estava lá e pronto.            Referindo-me a “Ubirajara”: a mulher torturada diz que o delegado é o próprio.   Restará, no mínimo, séria dúvida sobre os bons antecedentes do policial. Fui buscar na “internet” a data do nascimento do governador Geraldo. Tinha dez anos no golpe de 1964. Depois, crescendo, foi vereador, deputado muito bem votado, prefeito e vice de Mário Covas, chegando aonde chegou sem grandes entreveros com o regime.  De acordo com a biografia oficial, foi um dos fundadores do PSDB. Vale isso, no fim das contas, a dizer que não sofreu nas carnes o beliscão dos alicates empunhados pelos esbirros da ditadura. Já grandinho naquela época, tive participação discreta na resistência. Meus méritos: defendi uns meninos acusados de lançamento de bombas caseiras na cavalaria (conseguimos convencer a Auditoria de Guerra que aquilo não explodia – saímos do recinto no intervalo, com medo de que fizessem teste) e apresentei um fugitivo à 36.ª delegacia, um dia depois do assassinato de Herzog (Fui tratado com melão e presunto. Filmaram o almoço). Tive parceiro num dos episódios. Ele tinha dez mil dólares no bolso e o passaporte, tudo pronto para uma emergência. Pedi-lhe algum emprestado, de brincadeira. Se precisasse fugir, não chegaria além de Osasco…

         Arredondando a tragicomédia de “Um certo Capitão Ubirajara”, retorne-se ao ilustre delegado de polícia e ao governador. Há hoje homens que usavam calças curtas na ditadura. Não acompanharam os dramas daquele tempo infernal. Outros teriam, ou não, um passado condenável, à moda de “Klute”. A tortura é execrável, governador. Tirei um preso da Cadeia, naquele tempo, vivo sim, mas vinte quilos mais magro, isso dezesseis dias depois da prisão. Nunca se recuperou. Uma advogada foi posta em liberdade depois de ensurdecida com os “telefones” (mãos em conchas) nos ouvidos. Isso é o que se pode contar sem levar o leitor a desespero. Daí,é preciso que o governador, ex-vice de Mário Covas, examine durissimamente o assunto. Tocante ao “Capitão”, ou ele é o próprio ou não é. Se não for, as torturadas dizem que é. Se for, arrependeu-se ou não, mas não pode ficar onde está. Lembro-me de um antigo esbirro que confessou suas faltas ao entrar na velhice. Era exceção. A maioria tem ausência completa de autocrítica. Sonha com anjos. Alguns guardam, inclusive, os instrumentos de tortura sob a cama, a título de recordação. Dizem, aliás, que o bom torturador não tem partido político nem ideologia. Serve a qualquer governo. A história política dos povos passa. Os carrascos costumam solidificar-se, a exemplo daqueles fetos gerados fora da cavidade uterina dos seres monstruosos.  Disfarçam-se. Sempre encontram quem se entusiasme pelo mimetismo. Candidatam-se. Bem votados, dão lições de moral e severidade no trato da coisa pública. O único recurso de quem mantém nas carnes as cicatrizes do ferro em brasa é reivindicar justiça. Ficam no espaço os gritos de horror ricocheteando pelas paredes do palácio vermelho, prédio lá perto da estação de trens. Pretende-se transformá-lo em museu. Já é alguma coisa. As torturadas de antanho podem ocupar o palco na inauguração, enquanto repetem os urros de dor, acompanhando os acordes do hino nacional. É como o roteiro de Klute. As más ações condenam sempre…

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