PARA CHICO BUARQUE

Juarez Tavares

              ERNST TOLLER, um dos mais espetaculares escritores alemães, revolucionário de 1919 e depois exilado na época do nazismo, lembrou em um de seus livros, ainda na prisão, que a desumanização da pessoa se completa quando se lhe impede qualquer forma de comunicação com os demais e com a natureza. Começa essa desumanização com a perda do contacto físico com amigos e colegas, intensifica-se com as humilhações havidas no cárcere, com os sofrimentos provocados pela tortura, com o aniquilamento da esperança de liberdade e se exaure na complexa construção de novas crenças. Daí dizer ele, em um poema dedicado aos prisioneiros: “os seres humanos creem sem escolha”. Comecei a admirar CHICO BUARQUE desde suas primeiras canções. Lembro-me quando, ainda estudante de direito na UFPR, escutei de um de meus professores, JOSÉ RODRIGUES VIEIRA NETO, talvez um dos maiores civilistas brasileiros, cassado na ditadura, uma das frases mais marcantes no que toca à música brasileira: CHICO expressa a alma do povo, aquilo que o ser humano tem de mais puro e indestrutível, que é o anseio pela liberdade, pelo amor, pela acolhida e pela empatia. Depois, com suas extraordinárias produções musicais e literárias, esse sentimento mais se acentuou. À medida que o regime foi endurecendo e as perseguições ideológicas passaram a constituir o único objetivo do sistema, muitos saíram. Eu mesmo fui para a Alemanha; CHICO foi para a Itália. Na Alemanha, fui provocado por uma surpresa e, depois, tomado por um indescritível prazer: exatamente no ano de 1971 recebi pelo correio um embrulho em cuja etiqueta estava escrito “Viva o Brasil”. Logo pensei tratar-se de uma correspondência ufanista e abri o embrulho com muita relutância. Dentro havia uma fita cassete (nessa época não havia CD, ou DVD, ou qualquer outro dispositivo semelhante). Escutei a fita. Logo, a relutância se transbordou em prazer: a fita tinha gravada essa música marcante, necessária, fabulosa, que é “Apesar de Você”. Cada brasileiro, que a escutava, chorava, mas, ao mesmo tempo, se exaltava e passava a acreditar que tudo poderia passar. Não vou me estender mais, não há palavras para expressar tudo o que CHICO representa para nós, para o Brasil e para o mundo. CHICO nos traz a esperança, o amor, a alegria, a lealdade, o humor, a crítica social e política, o fortalecimento dos vínculos mais fortes com a humanidade, e nos faz ainda construir nossas crenças, e diversamente do que dizia TOLLER, com a escolha de lutar por um mundo melhor. PARABÉNS, MEU AMIGO.”

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