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Quem tem medo de polícia feminina?

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Quem tem medo de polícia feminina?

Cópia extraída da “Folha de São Paulo” – 18/05/03 Autora: Patrícia Santos
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         Jornal editado em 18 de maio exibe fotografias, de costas e perfil, da policial federal Estela Cristina Assumpção. As fotos vieram de Melo Franco, posto da Polícia Federal criado na fronteira do Brasil com a Colômbia. A moça, formada em engenharia, tem marido no também policial e engenheiro Castro Neto. Conheceram-se, segundo a reportagem, na academia do Departamento Federal. Foram enviados a Melo Franco para investigar a convocação de índios jovens pela “Farc” colombiana, protegendo-os, também, de riscos outros.

               A moça Estela, numa das fotografias, tem no colo um garoto indígena. Vêem-se cabelos loiros, presos atrás por uma fivela. As calças são aquelas tradicionais de campanha. Um fuzil a tiracolo (M16?) e um revólver de grosso calibre completam a indumentária visível. A identificação advém de grandes letras amarelas pintadas na camiseta negra: “Polícia Federal”.

               Sempre tive medo de polícia. É estranho tal afirmativa ser feita por um velho e calejado advogado criminal. A explicação é fácil. Por exemplo: vivi a adolescência nas praias santistas e cariocas. Tive uma barca a vela muito linda, de dois cascos, construída a partir de uma planta havaiana. O material era de compensado marítimo (Ainda não havia fibra de vidro).  Um mastro grande, aproveitado do pinho de riga da Santa Casa, apontava para o céu. A barca se chamava KOMIKI. Certa vez, o tempo mudou repentinamente. Veio um forte vento de boreste, misturando nuvens negras no horizonte, umas brigando com outras num bailado infernal. Quebrou-se o mastro bem junto à trava. O pano caiu sobre mim, enlaçando-me como uma grande coberta mortuária. Horas depois, exausto, fui encontrado à deriva por um pesqueiro e rebocado a lugar seguro. Trago daquela data uma lembrança esquisita do fim-de-tarde passado dentro do oceano. De dia a água é verde ou azul. À noite é cinzenta, escura, sinistra, escondendo, nas profundezas, mil segredos aguçados pela imaginação. Assim, Dorival Caymi só tem razão em parte, ao enaltecer a doçura de morrer no mar…

               Advogado criminal, mesmo empedernido, pode ter medo de polícia, como o marujo pode arrecear-se de velejar. Verdade é, entretanto, que as fotografias da moça me entusiasmaram. Uma espingarda potente, um revólver bem grande, o torso bonito, cabelos trigueiros descendo abaixo dos ombros e uma criança índia nos braços. Eis aí. Com respeito e reverência à jovem amazona, trata-se de mistura paradoxal de vocações: de um lado, a maternidade sugerida; de outro, o preparo para matar, se necessário, porque os utensílios são de guerra. Bem se vê que não foram fabricados para a caça ao passarinho.

               No fim de tudo, perceba-se, os bons marinheiros são prudentes no trato das ondas do mar, os criminalistas experientes têm muito medo da polícia e os homens, em geral, não se aventuram a menosprezar as mulheres. As fotos da moça, no contexto, deveriam ser exibidas nas paredes de todos os distritos policiais. Infundem respeito, equalizam os dois sexos e servem de lição. Há dois meses, em Goiânia, vi chegar, para um congresso de que participávamos, o ministro Márcio Thomaz Bastos. Mostrava-se contrafeito com a parafernália que o acobertava. Seu veículo era cinturado por motociclistas. Um destes me chamou a atenção, porque uma vasta cabeleira, contrariando regulamentos, se projetava além do capacete. O ministro entrou e os policiais, aproveitando a folga, descobriram as cabeças. O motoqueiro de cabeleira longa era uma bela morena, escorreita e elegante naquela vestimenta justa, botas negras muito bem engraxadas e uma automática à cinta. A moça percebeu meu espanto e sorriu, um riso complacente dirigido ao velho e acovardado marujo. Naquele instante, não sei por quais cargas d’água, lembrei-me do naufrágio e da mentira contida na canção do patriarca Dorival Caymi. Não é doce morrer no mar. É salgado. Além disso, rasgam-se as velas, rompe-se o casco e o socorro, às vezes, chega tarde demais.

* Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e quatro anos e Presidente, no Conselho Federal da OAB, da Comissão Nacional de Defesa das Prerrogativas. 

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