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Dia e Hora do Carandiru

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Dia e Hora do Carandiru
 


              

        Comenta-se, nos jornais, o sucesso de público do filme “Carandiru”, no Brasil e em Cannes, durante o festival dedicado à premiação da chamada “Palma de Ouro”, outorgada uma única vez a obra cinematográfica brasileira (O Pagador de Promessas – Anselmo Duarte). Daquela data a esta, embora produzindo coisas boas, os produtores e diretores brasileiros não tiveram muita sorte.

         O tema correspondente às agruras do sistema prisional não é novo, evidentemente. A originalidade advém da chacina de 111 prisioneiros e da crueza, misturada em emoções variadas, envolvendo detentos, funcionários, familiares e policiais, tudo envolto num faz-de-conta episódico em que homens se fantasiam de mulheres. No fim das contas, Carandiru é retrato de dramas rotineiros nos podres estabelecimentos prisionais do Brasil, destacando-se, apenas, a concentração de mortos e o escândalo judicial advindo da apuração e do julgamento dos envolvidos na matança.

         O centro da crônica, entretanto, não se relaciona com a tragédia. Advém da surpresa de declaração, atribuída ao autor do livro que inspirou o filme, posta numa lingüiça do jornal “A Folha de São Paulo”. Drauzio Varella, médico hematologista ilustre e hoje freqüentador assíduo de programas de televisão voltados ao esclarecimento do povo sobre particularidades ligadas à saúde, teria afirmado, na entrevista coletiva ou em outra subseqüente ao sucesso daquela obra cinematográfica, que o trabalho desenvolvido na prevenção da AIDS não tinha objetivo social, mas atendia a interesses do próprio médico. Transcreva-se: “Fiz isso em meu próprio interesse, não porque seja uma boa pessoa e queira ajudar os outros. Não sou uma boa pessoa e não quero ajudar ninguém, especialmente esse tipo de gente”. O ilustre e justamente premiado médico “double” de escritor deve ter dito aquilo. Se não disse, a responsabilidade de quem fez o inexato comentário é enorme. Conviria ao admirado intelectual, de qualquer maneira, inteirado do texto, corrigi-lo, explicá-lo ou refutá-lo. Realmente, se aquele respeitado hematologista passou dez ou onze anos de sua vida lidando com as agruras da população do Carandiru, não sobram muitas alternativas na interpretação das premissas: ou o fez por bondade, dispondo-se ao empréstimo de sua arte em benefício dos sete mil presos que constituíam a média da população flutuante daquela monstruosa e fétida fortaleza, ou agiu com objetivos científicos, transformando os reclusos em cobaias ou, finamente, teve interesses muito particulares enquanto espetava os pacientes de ocasião  ou preparava o livro que indubitavelmente, tem sérias conseqüências sociais. O teor da notícia referida exibe teor sibilino. Dá a impressão de ser, o consagrado escritor, um ególatra consumado, preocupado com sua obra e não com o relato das mil condutas anômalas descritas no livro e no filme. Evidentemente, há criaturas com tamanha chegança à verdade que não se preocupam em mascarar suas motivações, pondo-as abertamente, então, muito nuas e sem sofisticações, aos olhos de todos. Não deve ter sido isso. Varella tem tudo para se apresentar como um ser humano dedicado a comportamentos heróicos, apontando, enquanto passa pela vida, os desmazelos do Estado no trato com o cidadão. Dizem que chorou depois do sucesso provocado pela exibição do filme em Cannes. Venha a explicação, ou não chegue explicação alguma, pois obrigação não lhe cabe. Fica do meu lado, um vazio muito grande. Precisamos de totens, ícones e lendas, mortas ou vivas, mas sempre de santas fantasias: um papa a encontrar-se com Deus, uma Florence Nightingale, um Tiradentes, um literato crítico do sistema. Atenas tinha seu Hércules sobre a paliçada, mas Esparta exibia, igualmente uma estátua hercúlea vigiando suas ameias. Não quero perder o Varella. Já estava a pendurá-lo, em homenagem, no alto de meu portão.    

* Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e quatro anos e Presidente, no Conselho Federal da OAB, da Comissão Nacional de Defesa das Prerrogativas. 

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