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Robin Hood, ex-metalúrgico, furta do povo

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Robin Hood, ex-metalúrgico, furta do povo

 

 


 

               O presidente do Conselho Federal, Rubens Approbato Machado, usando outra vez a tribuna do Supremo Tribunal Federal, disse ao presidente da República aquilo que o povo brasileiro espera do novo governo. O discurso é transcrito, na íntegra, neste “site”.   Approbato já o fizera, aproveitando a oportunidade da posse de outro ministro do Supremo Tribunal Federal.  Suas críticas, naquele tempo, eram endereçadas a Fernando Henrique I e único, hoje ex-rei do Brasil. Houve, ainda agora, as mesmas observações de antanho: o bastonário fizera as observações censórias num momento em que, atento ao protocolo, o presidente da República não lhe podia responder. Se Approbato tem ou não razão nas admoestações, o povo decidirá, porque a dialética sempre entremostra muitas facetas. Soa como brincadeira, entretanto, o argumento de ter o presidente da O A B usado ocasião inadequada. Lula, antes de receber o cetro, era metalúrgico. Havia trabalhado nos fornos cadentes do ABC. Tomou cachaça em balcão de bares da periferia, sabe falar nome feio, contar piadas sem graça e fazer discurso em praça pública. Não falou porque não quis. O estatuto do metalúrgico não contém, como o nosso, dispositivo obrigando-o à replica de censura recebida, mas Lula, se o quisesse, daria umas cotoveladas no pressuroso e delicado chefe do protocolo e diria umas boas ao presidente da  O A B. Votei em Luiz Inácio. Ando preocupado com algumas mudanças em seu comportamento, mas o deslumbramento inicial é defeito do qual poucos escaparam, destruindo, inclusive, carreiras de muitos promissores jogadores de futebol. Aliás, o que vale para um ponta esquerda do Corinthians (também devedor da previdência) vale para um chefe de Estado. O gajo se cura disso. Ou não. O futuro dirá. Ruins, mesmo, são as investidas contra os pequenos aposentados. Há, é evidente, alguns privilegiados, entre os quais se encontra gente com duas ou três aposentadorias. O resto integra multidão sofrida, contando os tostões a ver se consegue enfrentar as contas do fim-do-mês. Existem,  de outra parte, centenas  de grandes devedores do INSS ( os ermínios, os sarados, os tedescos), todos escondidinhos atrás dos postigos,   tensos, é claro, como aqueles aventureiros    que não fazem marola no pântano, com receio de que o crocodilo os coma. Pode ser que Lula tenha algum preconceito contra a denominada classe média. Se o tiver, não incomodará os mais ricos e os miseráveis. Uns fecham os cordões da bolsa; outros não têm donde tirar. Vai fechar o buraco com os dinheiros do funcionário público, dos bancários, da professora   universitária, etc. Fará  seus acordos políticos para obter a pretensão. No fundo, uma troca de benesses: cargos por votos. Se um servidor público de categoria baixa faz isso, toma processo criminal por prevaricação. Política tem conceito diferente de ética.  Fernando Henrique fez muita permuta assemelhada. Sarney, egresso da ditadura, também o fez. Dão-se as mãos hoje, o metalúrgico perseguido e o herdeiro do coronelato, beneficiado, o último, por uma artroscopia desastrada. A cânula do cirurgião matou um e coroou o outro. Coisas da vida. Ou da morte.

         No fim das contas, Approbato usou o melhor palanque ofertado a um advogado: a tribuna do Supremo Tribunal Federal. Lá,   sob a solitária proteção da beca, disse ao inebriado egresso das fornalhas   o que  nós queríamos dizer-lhe, não eu, que nunca tive emprego nem aposentadoria. Minto. Há quarenta anos, fiquei trinta dias como advogado se um sindicato. Os adversários mataram o presidente com um tiro, a meu lado, numa assembléia. Minha carreira terminou embaixo da mesa diretora. Ah!… houve outra oportunidade. Vinte anos depois, candidatei-me a juiz pelo Quinto Constitucional. Burrice minha. A família pressionava. Entrei na lista sêxtupla, mas o tribunal não me deu um voto sequer. Os antecedentes do candidato eram imaculados mas, em noite de lua cheia, seria  capaz de mastigar a barra das togas dos companheiros, Não daria certo. Portanto, quanto às intenções de sangramento do funcionalismo público, veja o Lula por onde anda. Roubar (subtração com violência à pessoa) a classe média é covardia. É agressão inaudita, pois o servidor não tem como defender-se. Até minha cachorra Flor, quase um ser humano, enterra o osso para poder alimentar-se depois, antes que o jardineiro o tome. Luís Inácio (não sei se é com “z”) está perseguindo tarefa muito fácil.  Vai fazer como o senhor feudal, ele que é camponês: entra com a soldadesca computadorizada e arrasta as verduras, as maçãs, a galinha, caipira (não gosto de frango, tem pés horríveis), os patos, o leitão engordado para o natal, o leitãozinho (tenho pena deles) e o que mais houver sob o telheiro. Depois, volta ao castelo. Ali, espera-o o conselho do feudo (antigos guerrilheiros e médicos sem clínica – como o Geraldo, hoje vidrado em morte de bandido). Os nobres, palafreneiros às costas, pouco se importam com o povoado. Têm suas aposentadorias especiais, verbas de representação, gordos emolumentos e mil possibilidades de sobrevivência. Fritem-se os campônios. Restam-lhes os ancinhos, iguais àquele que o ex-ferreiro já pôs a descansar porque, enfim, o poder é sempre o poder. Mudam as pessoas. O minotauro fica.       

* Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e quatro anos e Presidente, no Conselho Federal da OAB, da Comissão Nacional de Defesa das Prerrogativas. 

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