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Briga Interna na OAB – V

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Briga Interna na OAB – V
(Ou “É tempo de buzinaço?”)

 
Plenário OAB/MT

 


                A Ordem dos Advogados do Brasil completa setenta anos. Há no país inteiro comemorações diversas. Houve em Mato Grosso, há poucos dias, reunião do colégio de presidentes de subseções daquele Estado. Realizou-se o conclave na sede da corporação, edificada em Cuiabá. Uma surpresa estava reservada ao visitante: o edifício que abriga a seccional de Mato Grosso é, simplesmente, lindo. Compõe-se de linhas arrojadas, numa construção muito clara e aberta. Os funcionários trabalham sem balcões ou obstáculos a contato com o povo. Respira-se liberdade ali. O presidente, Ussiel Tavares da Silva Filho está terminando o mandato. Não pretende, segundo ouvi, permanecer na liderança oficial. Não existem, na portaria  da seccional referida, catracas, detector de metais ou aqueles guardas trombudos que vêem um inimigo em cada qual. Os advogados entram e saem sem grandes preocupações com segurança pessoal, embora o clima político, lá, não seja dos mais tranqüilos.

               Há problemas internos. Nossa classe se habituou a acirradas disputas na escolha de seus líderes. Democracia é isso, respeitados os limites éticos, é claro, mas significando, sempre, brigas compridas. O conflito é bem melhor do que a unção de um cardeal. Chapas únicas nunca fizeram bem à Corporação.

               A viagem a Cuiabá gerou outra série de  reflexões. Acabava de deixar o Fórum Mário Guimarães, em São Paulo, o maior da América Latina e um dos maiores do mundo, grande a ponto de ter ruas internas e sistema severo de vigilância, hoje eletrônica somente, mas economicamente efetuada com palmatórias que passeiam sobre nossas malas, bolsas e partes. Deve haver por aí uma licitação para o uso de método menos indigno. O fórum criminal de São Paulo tem realmente ambiente pesado. Há algemas, presos arrastando chinelos, policiais carrancudos em profusão, juízes e promotores inominados empurrando as audiências como se faz no hospital das clínicas com os feridos em chegança. Aqui, não se diz bom-dia ou boa-tarde salvo a um velho professor ou desembargador aposentado que usa a terceira idade para relembrar os bons tempos em que vestia a beca de advogado.

               Traçando-se  paralelo entre a Ordem dos Advogados e o Poder Judiciário, vem à lembrança a enorme diferença entre o tratamento dispensado pela Corporação a juízes, promotores públicos e servidores em geral e a ríspida resposta advinda daqueles que têm, por função, a guarda, a manutenção e o atendimento nas múltiplas sedes do Poder Judiciário e seus cordões umbilicais. É difícil, hoje, no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, um despacho pessoal com o presidente, o vice ou desembargadores. Tocante a juízes de primeiro grau, atendem o advogado, se houver muita teimosia, mas o fazem sem deferência alguma. Pior acontece no Ministério Público. Em contraposição, a velha sede da O A B na Praça da Sé número 385, mesmo ultrapassada em conseqüência da imprevisão de muitos (coloco-me entre estes), recebe todos com absoluta franquia. Não há armas sob as becas. Há, para o interessado, um café bem quente, em xícaras sem timbre mas servidas afetuosamente. O presidente, quando está, está. Não se esconde atrás dos postigos. Inexistem câmeras de televisão ou palmatórias eletrônicas.

               Dir-se-á que advogados são menos vulneráveis. Engano profundo. Se houvesse competição nos defuntamentos, ganharíamos com facilidade. Aliás, num dia desses, houve no nordeste um júri em que se tentou colocar um colete à prova de balas sob as vestes talares do advogado. O colega até recebeu a novidade sem grande resistência, mas pediu licença, logo depois, para retirar aquela coisa estranha. O acessório impedia os movimentos e atrapalhava a respiração…

               Já se viu que o edifício libertário da seccional de Cuiabá, o labirinto do fórum João Mendes e a velha sede da O A B paulista levam a uma só conclusão. Dia desses, o presidente Aidar se entristece (tem seus defeitos, mas gosto dele) e põe, no portal, um detector de metais prateado, a exemplo dos filmes de Flash Gordon que via em criança, de mentira, é claro, e coloca atrás da porta um funcionário com uma buzina. O visitante é sorteado. Ao buzinaço, ou mostra o que tem na mala ou não entra. De repente, é um eminente magistrado, ou conspícuo promotor público. Cria-se situação vexatória, por certo, mas compreensível, nas circunstâncias. O único problema é que ninguém, na O A B, tem tempo ou paciência para tais filigranas. O presidente acaba tomando a buzina do porteiro, guardando-a atrás do sofá e gritando: “Oh Zé, deixa o gajo entrar. Não vê que é um juiz?”

 * Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e dois anos. Esta crônica é personalíssima. Retiro meus títulos.

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