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Ainda a revista pessoal em advogados

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Ainda a revista pessoal em advogados
 

“Yoda”

 


                Digo, às vezes, que tenho boca ruim. Afirmar-se-ia tratar-se, tal característica, de uma espécie de premonição. Não é. Resulta, apenas, da experiência. Há velhos comandantes de aeronaves que sentem uma vibração aqui, um barulho estranho no motor direito, uma cor diferente num mostrador qualquer posto à frente do manche. Vai o mecânico lá e não vê nada, mas o comandante diz: “ – Não vôo nessa desgraça. Um dia desses, ela cai.–” Evidentemente, o antigo piloto sabe das coisas. Quando a previsão acontece, alguém afirma que ele tem um acerto qualquer com uma divindade baiana. Isso lembra um dos filmes da série “Guerra nas Estrelas”. Havia um bichinho esquisito, mistura de coelho e esquilo, sempre encostadinho num canto e parecendo dormir. Às vezes acordava e dava alguns conselhos. Depois voltava a ressonar. Obviamente, seria muita presunção a tentativa de me harmonizar com “Yoda” mas, repito, tenho, ocasionalmente, gosto amargo na boca. Já afirmei que todos, mas todos mesmo, devem passar sob o portal dos detectores de metais, onde houver, submetendo-se às palmatórias, em hipóteses assemelhadas. Juízes, promotores públicos e policiais têm, por força de lei, permissão a porte de armas, existindo, inclusive, emitida por eminente autoridade, opinião no sentido de que tais armas sejam aquelas privativas das Forças Armadas (grande calibre). Entretanto, há três meses atrás, referia-me ao constrangedor incidente relativo a um juiz fluminense pego com três armas de fogo, uma bomba e vasta munição, dirigindo um automóvel sem licença regular. É exceção, é claro, mas os portais e as palmatórias eletrônicos são usados para verificação das hipóteses excepcionais, porque a quase unanimidade dos juízes, promotores de justiça, advogados e policiais é composta por gente equilibrada, não valendo dizer, portanto, que todos os juízes são terroristas, todos os promotores assassinos, todos os policiais membros do esquadrão da morte e todos os advogados desonestos. Vale lembrar tudo isso porque, embora não faça muita questão, leio, de manhã, o jornal “Folha de São Paulo”. Poderia ler o “Estadão”, também. Mas não tenho tempo para os dois. Prevalece a rotina. Vi, nesta madrugada, que um vereador, em Nova York, matou outro, seu adversário político, sendo morto depois, não se sabendo se por ato próprio ou de terceiros. Lá na Câmara dos Deputados, em Brasília, houve imenso tumulto envolvendo tropa de choque, manifestantes e os próprios deputados. Agora pouco, achei na mesma edição da “Folha” a imagem de alguém com um revólver na mão, seguramente autor de homicídio praticado contra um fotógrafo. No dia 18 de julho, em justa manifestação em que se pretendia, na Comarca de Osasco, protestar contra arbitrariedade e abuso de poder praticados contra um advogado por um promotor público, fui levado à frente dos manifestantes, não me certificando, agora, se queria aquilo ou se estava sendo empurrado pelos outros. De qualquer forma, às vezes, o porta-bandeira morre na guerra porque o general o põe carregando o estandarte …

               Naquela manifestação de Osasco, senti no peito o peitoral blindado dos soldados. A sensação não era original, porque em 1967, ano em que muitos eminentes juízes ainda não haviam nascido, já sentira os coletes da soldadesca a nos empurrar, com a particularidade de serem construídos com placas de aço e não de teflon. Preferível seria, é claro, o contato com a seda de um vestido de gala, mas nem sempre se pode escolher. Não se alongue a crônica. Basta lembrar que captei, no tumulto, um dos militares coçando o revólver, os olhos meio esgazeados, pois quem tem a força na mão não gosta de ser empurrado. Foi um instante só, mas alguém poderia ter morrido. Tudo isso reforça a insistência deste simulacro do velho “Yoda”. Não há vergonha nenhuma no aconselhamento a que os magistrados e funcionários públicos outros ultrapassem por dentro os portais dos detectores eletrônicos. Não dói. Ontem, precisando ir a Santos, passei por eles. Meus suspensórios apitaram. Não os tirei, pois as calças cairiam. Mas a minha malinha de médico ficou na bancada. Peguei-a depois. Não fiquei envergonhado, mas, atento ao princípio da isonomia, convido os eminentes juízes, e quejandos, a fazerem o mesmo. Lembro-os da bomba no colo do companheiro, da sedução representada pela arma à cinta, do confronto entre temperamentos mais acidulados, dos vereadores que se mataram em Nova York, do parlamentar que atirou no outro no Senado Federal, dos homicídios por paixão (amor ou ódio, pouco importa – v. “A paixão no banco dos réus”, de uma expert) e do dito popular que dá ao revólver um parentesco muito próximo com o demônio. Vestidos com armadura dos guerreiros, as batinas dos frades, as togas e becas de advogados, juízes e promotores de justiça, somos homens (e mulheres também, em homenagem às mesmas). Vamos lá: não machuca mesmo.


* Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e dois anos. Esta crônica é personalíssima. Retiro meus títulos.

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